Game XP tem boas atrações, mas organização prejudica a experiência

Longas filas, equipe despreparada e ausência de sinalização em um parque gigantesco tornam Game XP um evento confuso e cansativo

por Matheus Fiore

É curioso como a cultura “gamer” teve uma trajetória de altos e baixos no Brasil. Por muito tempo vista como algo infantilizado e nichado, hoje há exemplares da indústria dos jogos que lucram mais do que a indústria cinematográfica, por exemplo. É engraçado lembrarmos como em 2008, por exemplo, Counter Strike foi proibido no Brasil.

Hoje, dez anos depois, assistimos à eliminatória de um torneio de Counter Strike: GO em um dos maiores palcos culturais do continente, o parque olímpico.

Como diz o anúncio, o evento é o maior “game park” da América. Localizado no parque que recebeu os Jogos Olímpicos de 2016 e o Rock In Rio de 2017, o evento é o primeiro deste porte voltado para o público gamer. Fomos, então, ao primeiro dia da Game XP, e abaixo você poderá conferir nossas primeiras impressões sobre as atrações, estrutura e organização.

Atrações agradam; interesse por representatividade é ponto positivo

Game XP se divide em quatro núcleos de atrações. Há, na área externa,  atrações reais que emulam elementos de games: um mini-pátio com jogos de arremesso e arco e flecha com identidade visual do jogo Clash Royale ou um campo de laser tag licenciado pela marca Rainbow Six. Além disso, três arenas do parque olímpico foram disponibilizadas.

A primeira arena é a Inova, que traz atrações similares às da Rio2C, focadas em inovação e tecnologia, além de experiências esportivas. Muitas oficinas para o manuseio de máquinas de aprendizado autônomo industrial e experiências de realidade aumentada com óculos VR. Há até um simulador do Hyperloop. Parece faltar, porém, uma coesão nas atrações. Já na parte dos esportes, um simulador de vôlei de praia em VR e uma quadra de basquete foram as atrações mais procuradas da Inova.

A segunda é a mais disputada: a GamePlay Arena. Lá há dezenas de opções para os visitantes. Desde fliperamas com The King of FightersMetal SlugMarvel vs Capcom e dezenas de jogos clássicos, até consoles para que o público jogue os lançamentos da última geração, como o God of War de PS4 e o novo Homem-Aranha. O mais interessante dessa arena, porém, nada tem a ver com os jogos citados: há um labirinto gigantesco no qual as pessoas entram e se fantasiam e jogam Pac-Man.

Há de se registrar, porém, que foi nessa arena que comecei a ver os primeiros problemas de organização. Fui até o estande da Sony para jogar o novo Homem-Aranha e, quando peguei o controle e comecei a usar, uma funcionária do evento me avisou de que eu não poderia jogar. O motivo? Não me foi explicado, simplesmente fui impedido de jogar. Mais tarde, o videogame estava liberado e todos que ali foram puderam utilizar o PlayStation. Custava, então, informar que o jogo seria liberado apenas depois das 13 horas? Afinal, eram 12h30, e o evento já tinha começado oficialmente.

Na terceira arena acontece a parte mais interessante do evento. A Oi Game Arena recebe competições de e-sports como CS:GO e Mario Kart. Ali, foi interessante, além das próprias partidas, notar um esforço pela representatividade que se faz necessário no mundo em que vivemos. As partidas às quais assisti, de CS:GO, foram disputadas exclusivamente por times femininos. O mesmo aconteceu, aliás, na arena 2, em uma disputa de Rainbow Six Siege.

Estrutura e organização não só decepcionam, como prejudicam experiência

Organizar um evento do tamanho da Game XP certamente não é fácil. Mesmo assim, os erros cometidos pela equipe do evento são imperdoáveis. Um só exemplo sintetiza boa parte dos problemas: quando cheguei ao parque olímpico, precisava carregar meu celular. Procurei, então pela sala de imprensa. Falei com uma pessoa da equipe, que não soube me informar. Falei com uma segunda, terceira, quarta… Cheguei a perguntar para incríveis onze pessoas uniformizadas, e nenhuma delas foi capaz de me dizer onde ficava a sala de imprensa, que só encontrei quando, junto a um colega jornalista peruano – que também estava perdido e desamparado pela equipe do evento –, decidimos rodar o lugar inteiro para encontrar.

O problema se estende. Não há sinalizações ou placas orientadores, por exemplo. Entramos no parque olímpico e não há, sequer, uma placa que diga “à direita está X, à esquerda está Y”. Se em um local pequeno, a falta de sinalização já seria um problema enorme, em um game park estruturado no parque olímpico, que é um lugar imenso, é um grande erro.

A ausência total de sinalização, claro, prejudica muitos outros fatores. A entrada e saída das arenas é confusa, bem como a localização dos banheiros. Não foi difícil ouvir, mais de uma vez, comentários soltos de outras pessoas reclamando de que não encontravam algum estande ou atração. E pior: mais comum ainda era ouvir reclamações de outras pessoas que procuravam ajuda da organização do evento, mas os profissionais não sabiam o que fazer.

Mas, afinal, vale a pena?

Para quem busca ir à uma feira de games, há, de fato, muito conteúdo variado na Game XP. Consoles e experiências de diferentes gerações dos jogos agradam aos visitantes de todas as faixas etárias. Os problemas da organização, porém, são um grande empecilho para o deslocamento e a localização dentro do evento. Além disso, as longas filas também pareciam incomodar muitos dos consumidores que foram ao parque olímpico – afinal, duas horas de fila para um estande de rapel, sob o Sol, não é lá muito agradável.

Também incomoda a falta de coesão na hora de organizar as atrações. Na GamePlay Arena, por exemplo, há um artist’s alley que parece estar totalmente deslocado das demais atrações. Claro, o público gamer costuma ser, também, um público nerd. Mas uma mesa com artistas autografando seus trabalhos impressos em uma arena que é dominada por experiências de gameplay parece ser algo pouco coeso.

Mesmo que tenha começado como um pequeno teste no Rock In Rio 2017, podemos dizer que essa é a primeira experiência completa da Game XP. Como um game park, há potencial de melhora. Se feito novamente no parque olímpico, o evento precisa ter mais atrações. Nas áreas internas, porém, agrada não só o que está à disposição do público, mas também a forma como o evento encaixa os jogos, de forma que incentive uma experiência coletiva, e não algo solitário como acaba sendo quando jogamos um jogo em casa.

Para uma primeira viagem, é uma experiência ok. Mas o desinteresse e o despreparo da equipe para orientar e auxiliar os visitantes é não só desrespeitoso, como prejudica a experiência do público consumidor. É portanto um evento com muito potencial, mas que em seu primeiro ano mostra-se irregular.

É muito provável, portanto, que o elemento que vá definir se o público gostará ou não do evento não seja simplesmente as atrações, e sim a capacidade da pessoa de não se incomodar com os problemas de organização, como o despreparo do staff, a confusa disposição dos estandes e as longas filas. Em um evento tão grande, com tanto investimento, é no mínimo preocupante que os organizadores se preocupem tão pouco com fatores que deveriam ser o alicerce da Game XP. O meio gamer pode até estar recebendo mais reconhecimento e investimento por parte da mídia e das organizadoras de eventos, mas falta que eventos deste porte tratem melhor seus consumidores.

Compartilhe: