Ela é tudo isso mesmo
Após décadas de influência, negócios e filantropia, Oprah Winfrey mostra que seu verdadeiro diferencial nunca foi a fama

Tem uma coisa curiosa que acontece quando uma pessoa alcança um nível muito alto de reconhecimento: começamos a desconfiar dela. Existe quase um instinto coletivo de procurar a fissura, a contradição ou a estratégia por trás do sucesso. E isso se intensifica quando estamos falando de alguém como Oprah Winfrey, uma das figuras mais influentes das últimas décadas, homenageada este ano em Cannes com o prêmio LionHeart por sua contribuição filantrópica.
Quem esteve aqui no auditório Lumière entendeu que ela não apenas "liga pontos" olhando pra trás. Digo isso porque, em retrospecto, toda trajetória extraordinária parece inevitável. Como se os acontecimentos se organizassem numa linha reta e o sucesso fosse a consequência natural de um plano perfeitamente executado. Mas a Oprah dedicou boa parte da palestra justamente a desmontar essa narrativa.
Ela contou que, durante muito tempo, resistiu à ideia de se tornar uma marca porque associava isso à perda de autenticidade. Falou sobre intenção como uma espécie de bússola permanente e sobre a necessidade de usar a própria personalidade para trazer luz à essência da alma — algo que ela aprendeu no livro "A Semente da Alma", de Gary Zukav. E a partir deste insight, ela construiu uma rara coerência na sua trajetória.
Do programa de televisão ao clube do livro, da atuação em A Cor Púrpura à escola que fundou na África do Sul, tudo foi construído a partir da mesma pergunta: "o que eu quero com isso?"
Vivemos uma época em que a palavra autenticidade se tornou onipresente e até meio cansada. Mas a definição que ela trouxe me pareceu muito mais interessante: autenticidade acontece quando a personalidade passa a servir algo maior do que o próprio ego.

Ela mesma deu a pista ao explicar que nunca enxergou seu programa como um produto de entretenimento, mas como um serviço prestado ao espectador. “Eu era uma representante deles”, disse. Uma frase simples, mas que ajuda a entender por que sua influência atravessou tantas décadas e tantas plataformas diferentes.
E talvez seja por isso que sua filantropia seja tão consistente com o restante da trajetória. Oprah contou que construiu uma escola para meninas na África do Sul porque cresceu em situação de extrema pobreza no Mississippi e queria interromper esse ciclo na vida de outras pessoas. E depois de anos da escola funcionando, uma pesquisa da Universidade de Cape Town provou que o internato que ela criou interrompeu o ciclo da pobreza naquela região. Ela fez por aquelas meninas o que ninguém fez por ela.

Sua definição de legado, que ela recebeu de ninguém menos que Maya Angelou, é simples e justamente por isso, difícil de esquecer: seu legado não é um nome em um prédio. Seu legado é cada vida que você toca.
Saí da palestra com a resposta que eu coloquei no título: sim, ela é tudo isso mesmo. Mas o que mais me marcou foi perceber que, em um mundo obcecado por fórmulas de sucesso, Oprah construiu sua trajetória repetindo a mesma pergunta ao longo de décadas: “Qual é a minha intenção?”
É uma pergunta aparentemente simples. Mas sustentá-la por uma vida inteira talvez seja uma das tarefas mais difíceis que existem. Justamente por isso, é das mais recompensadoras.


