9 filmes de 2020 que você talvez não tenha visto (mas deveria)
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9 filmes de 2020 que você talvez não tenha visto (mas deveria)

3 filmes nacionais, 2 documentários e 4 dramas que não podem ser deixados para trás só por causa do caos da pandemia dos últimos nove meses

por B9

// Seleção por Matheus Fiore e Pedro Strazza

Tudo bem que é difícil não se deixar levar pela melancolia da passagem em todo fim de ano, mas 2020 testou todos os limites deste departamento. De meses que prometiam uma nova onda de sucessos explosivos de bilheteria e festivais recheados de novidades, fomos parar no desmembramento do coletivo e da experiência cinematográfica como um todo graças à exaustivamente citada pandemia do coronavírus – e como tudo, a indústria do audiovisual foi afetada em todos os níveis.

Desastres aconteceram em todas as frentes. Na distribuição, tivemos a altamente questionável reabertura dos cinemas e o desempenho medíocre de projetos imensos como “Tenet” e “Novos Mutantes” – virtualmente inacessados pelo público brasileiro mesmo depois da estreia no circuito. Na produção, dominaram as polêmicas em torno dos ditos “protocolos de segurança” e os casos detectados da doença em grandes estrelas, que nortearam filmagens dos próximos grandes blockbusters que ninguém mais sabe dizer quando estreiam. O problemático esporro de Tom Cruise na equipe do próximo “Missão: Impossível” só veio coroar o desgraçamento do mundo do cinema, que no Brasil ainda contou com novas articulações do governo para desmembrar de vez a história e o legado – pobre Cinemateca, uma refém sem qualquer salvador no horizonte.

Mas… e os filmes? 2020 sem dúvida foi um ano de desconexão da sétima arte da dita “realidade”, conforme aquilo que vimos na tela (ou no caso telinha, vide o isolamento social) poucas vezes se relacionou com a vivência mais imediata – talvez a exceção seja mesmo algo como o segundo “Borat”, ambientado no meio da pandemia. Isso não significa que fomos privados de grandes filmes, a começar pela rebarba da temporada do Oscar que nos promoveu pérolas mesmo que fosse por aquilo que os votantes da Academia esnobaram – incluindo aí “Joias Brutas”, “O Preço da Verdade” e “Uma Vida Oculta”.

Os últimos doze meses foram do streaming, porém, em particular da Netflix que monopolizou atenções com hits sequenciais (e em sua maioria esquecíveis) como “Troco em Dobro”, “Um Crime Para Dois”, “Enola Holmes”, “The Old Guard” e óbvio, o “Resgate” que se tornou o maior sucesso da história da plataforma. Grandes nomes também tiveram espaço com o público no serviço, incluindo Spike Lee com “Destacamento Blood”, David Fincher com “Mank”, Aaron Sorkin com “Os 7 de Chicago” e Charlie Kaufman com “Estou pensando em acabar com tudo”.

Outras plataformas chamaram a atenção com sucessos pontuais, e neste momento vale destacar os bons resultados da Apple TV+ com “Greyhound: Na Mira do Inimigo” e da Amazon Prime Video com “A Vastidão da Noite”. A locação digital, enquanto isso, se mostrou um território ainda a ser explorado pela distribuição brasileira mesmo durante a pandemia e munido de produções do porte de “Nunca Raramente Às vezes Sempre” e “Zombi Child”.

Em meio ao caos da quarentena, o B9 ao longo do último ano buscou cobrir as grandes estreias de um mundo privado da segurança dos cinemas – que até o fim da vacinação ainda serão vulneráveis à contaminação da Covid-19. A questão é que ainda sobrou muita coisa para se falar, porém, de pérolas do circuito de festivais a produções que inexplicavelmente permanecem inéditas aos brasileiros.

A seguir, listamos nove filmes nacionais e internacionais de 2020 que merecem uma maior atenção na reta final de um ano tão difícil.

Cabeça de Nêgo

Exibido pela primeira vez na Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, o filme do jovem Déo Cardoso foi um dos mais elogiados e aplaudidos do festival. Não à toa, dado que a obra talvez seja uma das que melhor aborda temas sociais e políticos contemporâneos de forma cinematográfica impressionante. O drama acompanha um aluno que, após sofrer um ataque racista na escola, se recusa a deixar o espaço até que a diretoria trate o problema com a seriedade que ele merece.

A ideia de Cardoso é não apenas de fazer um estudo das raízes do racismo na sociedade brasileira, mas um retrato de como ele persiste e se perpetua nos pequenos gestos, muitas vezes imperceptíveis para pessoas brancas. O diretor demonstra imensa inspiração no cinema de Spike Lee, principalmente pela forma como utiliza as referências conteudísticas e culturais como um todo na estética, mas vai muito além e passa longe de ser um abrasileiramento da forma de Lee.

“Cabeça de Nêgo” na verdade é até mais furioso, expositivo, visceral que as obras de Lee costumam ser, visto que leva os dramas do protagonista e dos coadjuvantes até as últimas consequências para mostrar como o racismo existe não só nas grandes ofensas, mas na estrutura social, e como ele pode escalar de maneira brutal e incontrolável caso não seja combatido desde os gestos mais pequenos. (M.F.)

First Cow

Única produção desta lista que permanece inédita no circuito brasileiro, o novo filme da veterana Kelly Reichardt pode ter feito sua estreia nos festivais no Festival de Veneza de 2019, mas só este ano explodiu entre a crítica e o público. Um efeito curioso, se considerar a proposta mais lenta de narrativa e o caráter um tanto fabular na abordagem da história de dois homens (John Magaro e Orion Lee) que veem na vaca de um dono de terras a saída da pobreza.

Como em “O Atalho”, sua primeira incursão pelo faroeste, Reichardt aqui aproveita as convenções do gênero para reivindicar novas narrativas dentro do imaginário norte-americano sobre a conquista do Oeste. “First Cow” revisa muito o sonho americano dentro do contexto do capital e das desigualdades entre os grandes proprietários e os pequenos desbravadores, mas há uma visão muito doce que norteia o todo com foco evidente nas relações de amizade e (por que não?) amor de seus dois protagonistas, até o fim a única coisa capaz de salvá-los do cenário duro ao seu redor.

O que salta aos olhos na produção, porém, é de novo a condução detalhista da diretora, cujo interesse nos pequenos atos é capaz de conferir textura ao teor histórico da narrativa. A comparação com “Onde os Homens são Homens” de Robert Altman é inevitável, especialmente porque dentro de seu passo vagaroso e silencioso “First Cow” se mostra uma tragicomédia de muitas leituras e significados. (P.S.)

As Mortes de Dick Johnson

Depois de dar início à carreira de direção com o que era literalmente um filme de “restos” de trabalhos anteriores (o poético “Cameraperson”, de 2016), a cinegrafista e documentarista Kirsten Johnson decidiu para o próximo trabalho redirecionar as atenções a questões pessoais sem deixar perder de vista a questão interior que pelo visto lhe é tão cara. O como disso é a premissa de “As Mortes de Dick Johnson”: com o pai envelhecendo e a possibilidade de doenças degenerativas pairando sob sua cabeça nos próximos anos, Johnson resolve filmar as diferentes mortes que ele pode sofrer ao longo dos próximos anos.

O tema é pesado, mas a condução do documentário é doce. Entre um registro bem humorado e outro das mortes do título, a cineasta revisita as memórias da família e da falecida mãe, os caminhos da vida do pai (há uma cena divertida envolvendo a ex-namorada) e até mesmo seus próprios questionamentos sobre o fim. “As Mortes de Dick Johnson” de fato pode ser encarado como um filme de luto, mas seu interesse mora na relação humana com o ato de se despedir, de um adeus doloroso cuja melancolia busca ser desfeita aqui – um viés solidificado pela própria diretora no reencenamento da missa que encerra os trabalhos da produção.

É coincidência demais que o longa tenha sido lançado na Netflix em um ano de pandemia, mas o fato é que em meio a um 2020 tomado pelo signo da morte sua presença atua quase como um remédio emocional à alma do público. (P.S.)

Nariz Sangrando, Bolsos Vazios

2020 rendeu muitas amarguras, mas dos efeitos imediatos poucos atos se comparam à impossibilidade do ato de reunião. Neste sentido, um documentário que ajuda a matar a saudade de uma aglomeração e oferece um próprio registro deste fim prematuro é o “Nariz Sangrando, Bolsos Vazios” dos irmãos Bill e Turner Ross, cujo ponto de partida é dos mais instigantes: as filmagens do último dia de vida de um bar nos arredores de Las Vegas – e com o irônico batismo de The Roaring 20’s.

Como é de se esperar numa produção dessas, os personagens que habitam as últimas 24 horas do estabelecimento são uma verdadeira coleção de figuras embriagadas – e cuja reunião é artificial, dado que são todos atores da região convidados pelos realizadores a aparecer no bar no dia após a eleição de Donald Trump para presidente. Mas muito além do desfazimento do naturalismo da coisa, o filme encanta pelos momentos despertados do caráter errático, apropriado ao ambiente e melancólicos dado o horizonte final da noite. Abraços, gritos e lágrimas são frequentes, é óbvio, e os irmãos Ross tem um ótimo olho para encontrar os momentos mais emocionais dentro do turbilhão movido pelos frequentadores e baristas – um ato muito bem auxiliado pelos registros das TVs que vivem a exibir filmes antigos, incluindo um muito apropriado “Titanic” de Jean Negulesco.

Os grandes momentos de “Nariz Sangrando, Bolsos Vazios” vem mesmo na reta final, para a surpresa de ninguém. Perante a inevitabilidade da manhã seguinte, o desmanche dos frequentadores e a maneira como um a um deixam o bar tornam o documentário valioso em seu reflexo para o público, um ato coroado na última (e dolorosa) saída. (P.S.)

On the Rocks

Primeiro produção cinematográfica de relevo da Apple no streaming (se desconsiderarmos “Greyhound”, que foi comprado da Sony Pictures) e marco inaugural da parceria da companhia com a A24, “On the Rocks” chama a atenção menos pelas questões de disputa inerentes ao mercado audiovisual que sobre as indagações que dizem respeito ao corpo da filmografia de sua diretora, Sofia Coppola. Adepta da perspectiva feminina e jovem desde “As Virgens Suicidas”, a cineasta promove aqui uma inversão drástica em seu cinema ao centrar a narrativa em torno de uma mãe, mas o ato termina um tanto sutil e adequado a todos os atos e gestos da obra – uma comédia em torno da suspeita de uma mulher (Rashida Jones) sobre a fidelidade do marido (Marlon Wayans) que é alimentada pelo pai bon vivant (Bill Murray).

Se tudo na superfície sugere um tom de amenidades e de reconciliação perante as relações da protagonista com os dois “homens de sua vida”, porém, o filme se revela bem mais perverso nas constatações que faz entre uma gentileza e outra. É um contraste proposital: enquanto a personagem de Jones busca averiguar se o parceiro a trai com uma colega do trabalho, o público é conduzido pelos meandros de um sistema de submissão do feminino ao universo masculino cuja violência nunca se escancara, mas se mantém presente no enquadramento da mulher como mãe – e o controle se dá de pai para marido, sem espaço para salvaguardas.

“On the Rocks” de certa forma é a inversão daquilo que Coppola propunha com “Um Lugar Qualquer” em 2010. Se em Los Angeles a diretora percebia a paternidade como uma maldição de projeção da parte dos pais, agora em Nova York é tudo sobre entender o mal de quem é projetado. (P.S.)

Sertânia

Com o governo federal se esforçando tanto para destruir de vez o cinema brasileiro, a força de “Sertânia” se fez sentir no circuito de festivais deste ano. Do Ecrã ao Olhar de Cinema, o filme de Geraldo Sarno diz muito sobre a carreira de seu realizador, mas também atingiu um maior público graças a sua revisão do fim do cangaço e de toda a mitologia da era no Nordeste – o que de certa forma conversa diretamente com o grande hit brasileiro de 2019, “Bacurau”.

“Sertânia” é acima de tudo um filme de retornos, uma constatação que surge não apenas sobre o caráter experimental de sua narrativa em preto e branco, mas da própria premissa sobre os últimos momentos de um cangaceiro à beira da morte. O desencanto é parte fundamental do todo, bem como o registro do fim e os valores que são perpassados – Sarno encerra o longa junto do povo brasileiro, não por acaso. Salta aos olhos a questão da resistência, porém, o que de novo diz muito sobre a popularidade repentina da produção adquirida nos últimos meses. (P.S.)

Sibéria

O auge do cinema de Abel Ferrara foi mesmo nos anos 90 com obras do porte de “Vício Frenético” e “O Rei de Nova York”, mas a atual fase do cineasta nova-iorquino não deixa de ser uma das mais interessantes do cinema contemporâneo do país. O diretor tem dedicado seu cinema à reflexão de questões internas, sobre seus próprios problemas, ideias, erros e (por que não?) sobre seu próprio cinema.

Debutado no último Festival de Berlim, “Sibéria” é o próximo passo desse estudo, que chega quase como uma continuação direta de seu último filme, o ótimo “Tommaso” – e ambos, vale ressaltar, são protagonizados por Willem Dafoe, talvez o principal parceiro de Ferrara ao longo de sua carreira.

Como no filme anterior Ferrara faz um conteúdo extremamente autobiográfico, mas se em “Tommaso” as questões do cineasta eram transformadas em questionamentos internos do protagonista – que por sua vez refletia estas por meio da narração em voz off – “Sibéria” transforma os sentimentos, sensações e angustias em geral em espaço. É um filme sobre um homem que confronta e lida com seus piores temores e traumas, e isso se reflete diretamente na construção imagética de tudo que cerca o protagonista vivido por Dafoe. É, portanto, um filme reflexivo, mas de atmosfera, de cenários. São cenários que projetam o que habita as profundezas da mente de seu autor, e pouquíssimos diretores contemporâneos conseguiriam fazer algo tão bem, tão belo e tão expositivo de seus próprios sentimentos quanto Abel Ferrara. (M.F.)

O Som do Silêncio

De nossa lista, “O Som do Silêncio” talvez seja um dos filmes com mais chances de chegar forte na atípica temporada de premiações de 2021. O drama de Darius Marder – seu primeiro longa de ficção – acompanha uma dupla de músicos de metal que excursiona pelos Estados Unidos. Um dia, porém, o baterista Ruben (Riz Ahmed) começa a perder sua audição, e sua vida vira do avesso enquanto precisa correr atrás de dinheiro para tratar a questão – ou pelo menos aprender a lidar com sua nova realidade.

O dilema entre aceitar o novo e lutar para manter o antigo é o grande foco de “O Som do Silêncio”, que impressiona principalmente pelo uso do som. Um dos pontos fortes do filme sem dúvidas é a atuação intensa de Riz Ahmed, que consegue transformar em expressões todo o caminhão de emoções que percorre a mente de Ruben. Mas se em uma análise mais simplista é a atuação de Ahmed que chama a nossa atenção, um olhar mais carinhoso para a produção mostra como, na verdade, Marder nos apresenta uma belíssima narrativa sobre lutar contra mudanças e se agarrar ao passado e o peso desse esforço. É um filme que não tem como destino os caminhos dramáticos mais fáceis justamente para nos permitir sentir o quão complexa e angustiante é a situação de seu protagonista. (M.F.)

Vento Seco

É histórica e inseparável a relação do cinema brasileiro com a política – nosso cinema sempre foi e pelo menos por muito tempo continuará sendo político – mas no atual século outras pautas foram agregadas ao cenário audiovisual do país. Com a ascensão dos debates sobre gênero e sexualidade, um movimento natural foi o surgimento do espaço para mais diretores fora do padrão homem hétero e cisgênero, e com isso cresceu também de forma interessante o número de filmes que abordem tais temas.

“Vento Seco” é um belo exemplar dessa mudança. O que o torna o filme de Daniel Nolasco extremamente interessante é a forma como ele aborda sexualidade sem abandonar a raiz política de nosso cinema, construindo um filme de afeto e auto exploração dos sentidos e desejos sempre em espaços políticos. É um filme que desenha sua sexualidade decorando com cores e corpos os espaços do proletário: as fábricas, as fazendas, as usinas, e por aí vai. Com isso, Nolasco consegue transformar as viagens sexuais de seus personagens em um belo manifesto político sobre carinho, poder e representatividade. (M.F.)

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