LinkedIn cria botão para denunciar slop de IA e remove sua ferramenta de reescrita
O recurso foi confirmado pelo chief product officer Hari Srinivasan e chega depois de estudo apontar que mais de 40% dos posts longos da plataforma são gerados por IA

Todo post do LinkedIn passa a ter, no menu de três pontinhos, uma opção que diz "Seems like AI slop". Quem clica recebe um agradecimento pelo feedback e vê o post sumir do feed. A 404 Media achou o botão primeiro, e horas depois o chief product officer Hari Srinivasan confirmou num post que o assunto virou prioridade da casa.
O botão vem acompanhado de um pacote. Srinivasan lista classificadores novos para identificar publicação de slop ou de baixa qualidade, com efeito sobre o que aparece em conteúdo sugerido e em posts de fora da sua rede. Lista também um teste de aviso privado no painel de métricas de quem publica, acionado quando outros membros acharem que o texto soou inautêntico, além da expansão da verificação de perfis e páginas e da opção de bloquear comentários vindos de páginas de empresa.
O LinkedIn vai, inclusive, remover o "enhance your post", a reescrita com IA que a própria plataforma oferecia em cima de cada caixa de texto, e trocar por um corretor que, na descrição de Srinivasan, revisa as palavras sem mexer na voz de quem escreve.
Achar um candidato pra denunciar e testar a nova ferramenta não deu trabalho. O 404 Media conta que levou cerca de seis segundos de rolagem para encontrar o primeiro: reconhecido pelo espaçamento, pelos emojis, pelos bullets de principais aprendizados e pela construção que nega uma coisa para afirmar outra, no molde "X is not Y". Nenhum desses sinais foi inventado por uma máquina, claro. São os tiques do post que a plataforma vem recompensando com alcance há anos.
Os números que puseram o assunto na mesa vêm da Pangram, empresa que vende detecção de texto gerado por IA. No levantamento dela, mais de 40% dos posts longos do LinkedIn saíram marcados como inteiramente gerados por máquina, e a rede respondeu por 62% de todo o conteúdo de IA flagrado em cinco plataformas, apesar de representar só um terço dos itens analisados. A base tem mais de 1 milhão de posts coletados desde 24 de abril entre usuários que optaram por compartilhar as estatísticas da extensão da empresa no Chrome. Vale como amostra do que essa gente viu no feed, não como censo da plataforma.
Srinivasan chega perto de nomear a origem do problema quando explica por que as pessoas recorrem à IA por lá. Segundo ele, o LinkedIn não é um lugar de responder em uma palavra, e os membros se sentem mais confiantes passando o texto pela máquina antes de publicar. A pressão de performance profissional é da casa, e a IA apenas barateou o custo de obedecer a ela.
Como escrever bem, de William Zinsser (Fósforo)
Zinsser passa o livro inteiro caçando o que ele chama de entulho. Aquele advérbio que não trabalha e o jargão que finge autoridade. Escreveu isso nos anos 1970, contra redatores humanos, e a lista envelheceu bem: é mais ou menos o inventário que o classificador do LinkedIn vai perseguir agora. Essa nova edição da Fósforo traduz a versão comemorativa de trinta anos, revista depois da internet.
O movimento não é inédito pra plataforma. Em maio o LinkedIn já havia rebaixado posts genéricos de IA nas recomendações, sem removê-los, e o resultado ficou aquém do tamanho do problema. O que mudou desde então foi o custo de marca. O nome da plataforma virou insulto de categoria, e o Substack chegou a justificar o lançamento do próprio detector dizendo, pela boca do CEO Chris Best, que não quer virar um LinkedIn.
O botão também resolve um problema de dados. Srinivasan escreve que slop é difícil de definir e que a definição muda, e que por isso o clique dos membros serve para calibrar os modelos da casa. Cada denúncia é uma etiqueta de treino produzida de graça, com a recompensa imediata de sumir com um post chato.
Porém, como tudo, tem suas complicações. Não se sabe se alguém revisa o que foi denunciado, já que o efeito visível se esgota em ocultar o post para quem clicou. E a ferramenta chega sem trava aparente contra uso oportunista. O ghostwriter de tecnologia Colin Steele apontou o risco de empresas e seus funcionários denunciarem concorrentes sem mérito nenhum.



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