Segundo “It” intriga pela escala de suas ambições, mas pouco faz por elas

Parte final da nova versão do palhaço Pennywise almeja posto de maior adaptação da obra de Stephen King, mas termina limitado pelo vazio de sua proposta de horror

por Pedro Strazza

Se conversa muito nos dias de hoje sobre a tal “mainstreamização” do horror, um fenômeno cultural do cinema contemporâneo que (em parte) graças ao achatamento da produção de médio orçamento em Hollywood permitiu ao gênero se emancipar do mercado de nicho e se legitimar enquanto máquina de bilheteria. O que pouco se conversa, porém, é que mesmo neste processo de “popularização” e polarização entre o blockbuster e os longa-metragens “independentes, mas patrocinados” o terror ainda manteve intacto sua caracterização histórica de produção barata dentro da indústria: a exemplo de décadas anteriores, as obras que se consolidaram como verdadeiros sucessos financeiros nestes anos 10 mantiveram a constante do custo baixo, seja nos conceitos originais (“Corra!”, “Um Lugar Silencioso”, “Hereditário”) ou em continuações dos quais se buscou repetir o feito da boa arrecadação para seus estúdios (como a série “Invocação do Mal” e todos os seus derivados).

É neste cenário de “filmes evento” e da busca de bilheterias cada vez mais exorbitantes, porém, que a continuação de “It: A Coisa” busca estabelecer a este segmento um modelo que mora no outro lado desta balança de extremos. O “segundo capítulo” da nova adaptação do gigantesco livro de Stephen King para as telonas, afinal, não poderia estar mais distante das convenções orçamentárias que permitiram ao terror se provar como fonte de renda confiável de Hollywood, algo obtido não apenas pelo inchaço de seu orçamento aos níveis de uma superprodução da indústria mas pelo próprio tratamento dado pela Warner Bros. e o público após o sucesso descomunal de seu antecessor, há dois anos.

Estamos diante, assim, de um fenômeno de pouquíssimos precedentes na história da indústria hollywoodiana, que embora já tenha em outros momentos dado o devido tratamento de prestígio ao gênero nunca antes fez um esforço tão calculado de montar um blockbuster de terror sob a certeza de obter os lucros subsequentes. É claro que a própria terminologia da palavra “blockbuster” remonta ao “Tubarão” de Spielberg e passa por filmes como “O Exorcista” de Friedkin e o “Gremlins” de Dante, mas é com este “It: Capítulo Dois” que o sistema de estúdios enfim almeja sem nenhuma hesitação o seu próximo mamute milionário – e é exatamente esta escala tão maciça que bem ou mal ocupa o centro das atenções na sequência.

O diretor Andy Muschietti (à direita) conversa com o elenco mirim no set

Esta conversão desperta interesse no filme porque a produção comandada por Andy Muschietti não parece querer fugir, mas abraçar esta incumbência pelo visto assimilada após os resultados arrasadores do primeiro capítulo. É um posicionamento que explica pelo menos o porquê deste segundo “It” se mostrar tão mais próximo a outros fenômenos hollywoodianos da última década que ao horror em si, algo que se apresenta com maior clareza não na presença de atores estrelados ou no maior orçamento de efeitos visuais, mas no aceno constante do roteiro de Gary Dauberman aos fãs de King – não é por acaso que há uma piada recorrente sobre péssimos finais na história, afinal.

O traço mais evidente dos efeitos desta ampliação da escala comercial, porém, é que esta intermediação do filme com o público admirador do escritor vai além do humor e passa a reger de fato suas dinâmicas dramáticas como verdadeiro maestro silencioso, numa relação semelhante ao que Hollywood se habituou a realizar em franquias posteriores à saga “Harry Potter” e que foi aperfeiçoada comercialmente pelo Marvel Studios e seu universo cinematográfico. Ao invés de seguir repetindo a nostalgia oitentista do capítulo estrelado pelas crianças (ainda que ela exista numa discreta, mas esperta referência ao quarto “A Hora do Pesadelo”), Dauberman aqui aproveita o gancho deixado pela divisão cronológica do livro para concentrar esforços na tarefa de dar cabo dos dramas destes mesmos personagens agora crescidos – em especial a consumação do triângulo amoroso entre Beverly (Jessica Chastain), Bill (James McAvoy) e Ben (Jay Ryan) – uma medida capaz de reforçar o parentesco entre o tom de folhetim novelesco do longa com estas outras séries de produções “menos adultas”.

A intermediação do filme com o público admirador do escritor vai além do humor e passa a reger suas dinâmicas dramáticas

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Mas é na relação com o horror que o “Capítulo Dois” no fundo precisa provar a durabilidade desta ponte entre seu gênero e suas ambições, um ponto que se revela o nível grave de fragilidade da continuação perante as bases de sua estrutura. Isso porque por mais que o terror se encene aqui como chamariz maior da história (até mesmo literal, dado as características da criatura vivida por Bill Skarsgård), na narrativa Muschietti se mostra interessado apenas no esforço de traduzir visualmente os conceitos psicológicos densos presentes nos arcos dos personagens – seja nas criaturas geradas por efeitos visuais, seja nos flashbacks – que reconfigurá-los ao clima de tensão. A exemplo do primeiro “It”, o terror é tocado pela sequência como uma casa de sustos elementar, mas imbuído de uma fragmentação maior perante a lógica de impacto constante do filme arrasa-quarteirão tradicional.

O resultado não deixa de ser canhestro, até porque este efeito instantâneo permanente do blockbuster almejado pelo diretor só distancia a produção de seu gênero elementar. Ao invés de aumentarem o clima de suspense, os blocos de horror se mostram não apenas isolados como sequenciados, agremiados de forma burocrática pela montagem de Jason Ballantine na esperança de que a proximidade seja suficiente para perpetuar o sentimento de tensão. A cristalização deste colapso ocorre nas duas situações de terror envolvendo crianças e no prelúdio, cenas paralelas à ação principal que parecem ocorrer apenas para fomentar a continuação de um gore prometido e ignoram quaisquer outras possibilidades fora do impacto planejado – e aí talvez ocorra aos mais conservadores uma discussão sobre se os realizadores não estariam tirando proveito demais da violência exibida na tela.

O terror é tocado como uma casa de sustos elementar, mas imbuído de uma fragmentação maior perante a lógica de impacto constante

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Independente da moralidade por trás do horror, o importante a se notar é que a partir desta proposta limitada de trem-fantasma anabolizado o segundo “It” é posto a girar em falso. Fora da dinâmica com o fã, a sequência não parece ter muito a oferecer dentro de uma história que noveliza até onde é possível o jogo de simbolismos – algo que chega ao nível da banalização na intercalação recorrente entre o elenco adulto e mirim para materializar os flashbacks – e é salpicada de sustos por uma mão mais pesada somente para manter o interesse do espectador sobre os eventos mostrados, e neste sentido não ajuda que a longa duração de quase três horas só exista para preservar o misticismo perante a complexidade do livro de King.

É exatamente de misticismo, aliás, que o filme no fim parece estar atrás enquanto sequência, num esforço de tradução de grandiloquência interior que não apenas encerre a jornada de seus personagens para derrotar a criatura mas também carregue para dentro de sua narrativa o valor agregado por décadas à obra de King, um que justifique ao público pelo menos o porquê desta adaptação ser a epítome da cultura criada em torno do autor e seu legado. Falta a Muschietti e ao “Capítulo Dois”, entretanto, a constatação de que o cinema vai além – ou pelo menos deveria ir além – da mera função de adaptador visual da palavra escrita nestes propósitos.

nota do crítico

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