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Imagem: In Disney and Pixar’s “Soul,” a middle-school band teacher named Joe Gardner (voice of Jamie Foxx) makes one small misstep which takes him from the streets of New York City to The Great Before—a fantastical place where new souls get their personalities, quirks and interests before they go to Earth and where he meets a precocious soul, 22 (voice of Tina Fey). Directed by Academy Award® winner Pete Docter, co-directed by Kemp Powers and produced by Academy Award® nominee Dana Murray, p.g.a., “Soul” will debut exclusively on Disney+ (where Disney+ is available) on December 25, 2020. ©2020 Disney/Pixar. All rights reserved.

A essência do cinema da Pixar é o grande centro emocional de “Soul”

Filme de Pete Docter e Kemp Powers simplifica narrativa tradicional do estúdio em cima de uma história que é literalmente sobre aprender a viver

por Pedro Strazza

É no mínimo curioso que “Soul” seja lançado no mesmo ano de “Dois Irmãos”, dado que os filmes não poderiam ser mais opostos na sua relação com a Pixar. Lançado no início de 2020, a aventura inspirada em RPG de Dan Scanlon de certa forma existia enquanto uma antítese do modo de operação que se habituou a esperar do estúdio, superestimando a comédia e apelando a um formato de contação de histórias diferente (os jogos de representação) enquanto mantinha a filiação a temas adultos em narrativas juvenis.

Se “Dois Irmãos” existe como espécie de patinho feio, “Soul” em tese surge como novo e grande filho predestinado. É o novo filme de Pete Docter, um dos últimos nomes “originais” remanescentes e atual diretor criativo da Pixar, e desde a concepção tem no circuito de prestígio seu público cativo – inclusive até a pandemia era uma presença confirmada no Festival de Cannes, chegando a receber o “selo de aprovação” do evento em seu cancelamento. Não bastasse tudo isso, graças a Docter ainda é de cara “o próximo filme” do diretor de “Divertida Mente” e “Up: Altas Aventuras”, duas das grandes joias da história da empresa.

Mas enquanto o noticiário e a publicidade envolvida sugerem uma oposição entre as duas obras, num esforço que se tornou mais ou menos comum ao estúdio de hoje, seu pareamento soa mais íntimo que a conotação comercial/arte habitual de outros anos da companhia – “Carros 3” e “Viva” em 2017, “O Bom Dinossauro” e “Divertida Mente” em 2015. Essa afinidade se dá sobretudo por uma questão de desvencilhamento: se “Dois Irmãos” virava de ponta cabeça a estruturação tradicional das histórias da Pixar, “Soul” é o filme que mira sobretudo a redução essencialista das mesmas. A premissa diz tudo: depois de anos da piada do estúdio tirar emoções de toda sorte de objetos inanimados, a história da vez é situada nos limites do além-vida.

Docter tem algumas razões para promover tal exercício, a maioria delas estando ligadas aos próprios rumos recentes da empresa a qual herdou o comando em 2018. Com a demissão vexaminosa de John Lasseter, a saída gradual de veteranos como Lee Unkrich e a transição da Pixar da imagem de um espaço de criatividade para uma posição de produtora, faz sentido que o diretor e animador tenha interesse de retornar às bases e fazer um filme que sirva de referência ao que de fato é o estúdio em sua essência. A trama espiritual é um aceno nada discreto, mas desde o começo “Soul” já se mostra mais consciente dos próprios movimentos em relação a seus antecessores. Tudo bem que os filmes da Pixar adoram sintetizar ideias em seus prólogos, mas até mesmo pros padrões de Docter a produção é bem mais ritmada para apresentar o protagonista Joe (Jamie Foxx) e sua morte – da aula pra loja da mãe, daí pro teste da banda e enfim pro desfecho trágico.

Ainda sobre acenos, a construção dos mundos pré e pós vida em torno de noções bidimensionais e tridimensionais reforça o direcionamento geral da animação, mas é a relação da dupla de personagens principais com o tema maior que de novo busca dar o tom das ambições da narrativa. Joe é um professor de música que prioriza a carreira de músico sobre todo o resto de sua vida, e 22 (Tina Fey) é uma alma ainda não nascida que se recusa a viver em prol de uma existência confortável eterna no além. Unidos por uma demanda em comum, ambos confundem vocação por essência e tratam seus dias a partir desta inversão, o que pro longa é o gatilho a toda a discussão sobre o ato de viver.

Desde o começo “Soul” se mostra mais consciente dos próprios movimentos que seus antecessores

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Neste quesito a formatação de “Soul” não é muito diferente da de “Divertida Mente” e “Up”, cujos relacionamento maiores da trama guiavam a narrativa em torno de assuntos delicados como luto e depressão. A diferença, porém, é que Docter aqui não apenas trabalha em tese com um tema solar (não é sobre superar dores, mas um reaprendizado) como se interessa pelo funcionamento da balança emocional que se tornou regra da Pixar. Não à toa “Soul” deve ser o filme do estúdio que menos se compromete em seguir regras do jogo narrativo, porque o ponto da direção é se guiar quase que exclusivamente à partir das emoções despertadas em cada cena, trazendo à tona o trânsito entre estrutura e toque pessoal.

Enquanto isso tira do filme seus alicerces mais básicos (quem se guia pelo gato e rato da história deve ficar bem frustrado com a resolução, por exemplo) é divertido perceber como a “experiência” de assistir a produção é das mais orgânicas. A narrativa se reorganiza a cada 20 ou 30 minutos sem nunca perder consistência, com Docter aparentemente no auge de seu timing cômico – há uma piada hilária com o New York Knicks, mas a pérola é a homenagem indireta a “Um Espírito Baixou em Mim”. A presença do roteirista Kemp Powers como co-diretor, pelo visto realizada sob a preocupação de ter pela primeira vez um negro como protagonista, parece também ajudar o filme a manter coesão no drama de um salto a outro, sem nunca se perder na autoparódia ou na abstração pura.

Docter não apenas trabalha com um tema solar como se interessa pelo funcionamento da balança emocional que é regra da Pixar

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É esta guia mais solta que retoma o paralelo com “Dois Irmãos”. Apesar de “Soul” ser mesmo a produção grandiloquente e detalhista da dupla – algo que elementos como a recriação de focos de luz na iluminação das apresentações e a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross bem denotam – Docter e Powers aqui fazem um teste de limites da fórmula do estúdio parecido com o de Scanlon ao incorporar o RPG. Tudo é feito para abrir espaço, mostrar como novas visões são possíveis dentro das velhas estruturas.

Há uma questão de corporativismo inerente a todo este esforço, mas enquanto do lado da Pixar isso é uma discussão inevitável por conta de sua relevância no conglomerado da Disney (bem como o impacto de todos os desdobramentos das séries que prepara para a Plus), do lado do público é difícil não se deixar levar pela continuidade de valores presente no filme, bem como sua própria inventividade a partir de gestos simples e humor esperto. “Soul” é uma nova declaração de princípios, afinal, e como tal sabe como se aproveitar da própria pureza.

“Soul” estreia no Disney+ no dia 25 de dezembro.

nota do crítico

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