“Fragmentado” traz M. Night Shyamalan em sua melhor forma

Direção precisa e grande atuação de James McAvoy são os destaques do filme

por Virgílio Souza

⚠️ AVISO: Contém spoilers

Para compreender melhor o fenômeno “Fragmentado” na carreira de M. Night Shyamalan, é preciso olhar para trás. Um recuo de pouco mais de um ano nos leva até “A Visita”, marco importante em sua trajetória recente. Primeiro fruto da parceria com a produtora Blumhouse, responsável por alguns dos mais relevantes títulos do cinema de horror no século 21, o filme teve bons rendimentos de bilheteria e foi bem recebido pela crítica. O cineasta parecia ter superado seu período de maior irregularidade, que compreendia os lançamentos entre “A Dama na Água” e “Depois da Terra”.

Faltava, porém, um grande teste. Embora representasse uma espécie de redenção aos olhos da audiência geral, o longa de 2013 tinha características que o diferenciavam das demais obras do diretor-roteirista. O escopo menor da produção, em especial, surgia como um fator determinante para sua história de sucesso. Para muitos, principalmente os mais desconfiados, o saldo positivo ainda era mais uma surpresa do que a confirmação de um potencial esquecido no passado. Nesse sentido, “Fragmentado” representa um passo adiante na nova fase.

Shyamalan no set

O caso é mais complexo do que parece. Ao mesmo tempo em que aproveita elementos básicos do gênero trazidos à tona por esse último retorno às origens, Shyamalan articula várias das ideias essenciais de seu trabalho a partir de um repertório completamente novo. O esqueleto da trama segue outra vez um esquema simples do horror (três garotas tentando escapar de um sequestrador), mas ganha contornos particulares quando acompanhado pelas questões fundamentais do cinema do diretor (o peso de um trauma, a força de uma crença).

O fato de boa parte da ação se desenrolar dentro de limites espaciais definidos é bastante significativo. Símbolo de refúgio diante do desconhecido e possibilidade de salvação em filmes tão diferentes quanto “Sinais”, “A Vila” e “Fim dos Tempos”, a casa agora é elemento de desequilíbrio — e isso vale tanto para o local onde as personagens são aprisionadas quanto para os ambientes familiares apresentados em flashback. A ameaça está do lado de dentro, não de fora, e as dinâmicas envolvendo parentes próximos, que deveriam oferecer segurança, seguem o caminho contrário e geram marcas no corpo e na mente. A um só tempo, são cicatrizes visíveis e gatilhos para comportamentos que, inesperadamente, aproximam Casey (Anya Taylor-Joy) e Kevin (James McAvoy).

Aqui comandada pelo diretor de fotografia Mike Gioulakis (de “A Corrente do Mal”), a câmera de Shyamalan entende os espaços limitados que possui à disposição para promover seu jogo de ilusões. Os planos subjetivos, nos quais o espectador assume o ponto de vista dos personagens, alertam: nem tudo é o que aparenta ser. Uma janela que poderia permitir a escapada, por exemplo, se revela uma fantasia infantil e, por consequência, uma frustração real.

A tensão desempenha um papel importante sob esse aspecto. Acompanhando de perto os rostos e movimentos das garotas e do sequestrador, muitas vezes recorrendo a lentos zooms em direção a eles, “Fragmentado” encontra detalhes imprescindíveis para o desenrolar da trama. Se por um lado os closeups (que tiram de foco os cenários e apostam na expressividade dos atores) geram confusão e o agravar da condição de Kevin aponta para um destino trágico, por outro determinados instantes parecem nos dizer que alcançar a luz é possível. Como nas obras mais celebradas do diretor, compreender os menores sinais é fundamental para a salvação. O tecido colocado na fechadura e o recado deixado sobre a mesa são bons exemplos disso.

Como nas obras mais celebradas de Shyamalan, compreender os menores sinais é fundamental para a salvação

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Essa iluminação só é possível porque existe um interesse genuíno em compreender o que acontece em cena — sobretudo as ações motivadas pelo distúrbio do sequestrador e as reações de Casey a seu comportamento. Por essa razão, o longa insere sessões de terapia com a doutora Karen Fletcher (Betty Buckley) entre os eventos no cativeiro e os breves retornos no tempo, ressaltando seu principal questionamento: até que ponto a mente pode controlar o corpo? (Vale notar: Shyamalan definitivamente crê no poder de um deles sobre o outro; o ponto aqui é perceber as maneiras como esse poder é exercido e se manifesta).

Existem duas ideias importantíssimas no centro de sua filmografia. A primeira diz respeito a uma noção de fé. Em praticamente todos os seus filmes, o momento decisivo se dá pela confirmação ou subversão de determinada crença partilhada por personagens e espectadores. O diretor constrói expectativas e alimenta essa comunhão de modo a tornar ainda mais impactantes as respostas oferecidas posteriormente — no caso mais emblemático, ele nos faz confiar no homem para depois transformá-lo em fantasma diante de nossos olhos. Se um personagem acredita (e nos faz acreditar) tanto no próprio poder, ele pode se tornar de fato mais poderoso?

Deriva daí a segunda ideia central: a conexão entre o mundo fantástico e o mundo da natureza (ou, ainda, a própria percepção de que as duas coisas habitam o mesmo universo). Uma das personalidades criadas por Kevin é diabética; as demais, não. Ou seja, um distúrbio de ordem psicológica é capaz de alterar o corpo e, mais especificamente, sua composição química. Seria então possível que uma dessas personalidades alcançasse condições físicas sobrenaturais, mesmo partindo de aspectos naturais?

O rosto de James McAvoy é como uma tela em branco em que qualquer coisa pode ser projetada

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A forma como essas questões são desenvolvidas cria um dos desfechos mais intensos da carreira de Shyamalan. “Você é produto de seus traumas, mas pode se tornar o que quiser se acreditar”, ele parece nos dizer com a mesma clareza de “Corpo Fechado”, um filme seguramente mais paciente. Muito do sucesso na empreitada depende da postura frontal que o diretor e os atores assumem em relação a esse horror que é mundano na essência.

“Fragmentado” olha seus personagens de frente, sem subterfúgios. O rosto de McAvoy é como uma tela em branco em que qualquer coisa pode ser projetada, e é fascinante observar aspectos diferentes do mesmo indivíduo se manifestando de forma isolada. Em mais de um momento, ele muda de personalidade diversas vezes em um só plano, o que não apenas aumenta seu caráter instável e aterrorizante, como também torna sua condição algo doloroso e palpável.

A habilidade do ator impressiona também nos momentos em que o tom escapa da seriedade. O trecho em que Hedwig, sua personalidade de nove anos de idade, retribui a homenagem a Kanye West anos depois de “Through the Wire” (em que o rapper faz referência direta ao cineasta) é tão hipnotizante e divertida quanto os números musicais do garotinho de “A Visita”. O diretor encara o humor cada vez mais confiante na lógica de que um espectador que ri está desarmado para qualquer susto que venha a seguir e mais suscetível a deixar expostas suas reações. Não há nada menos cínico e mais honesto do que isso, e Shyamalan sabia desde o início.

nota do crítico

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