Cultura 27 jan 2018

“The Post”: um drama de época para refletir sobre o presente

Passado nos anos 1970, filme reúne Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks em defesa da liberdade de imprensa

“The Post”: um drama de época para refletir sobre o presente
The Post

O livro “A Companion to Steven Spielberg”, parte de uma série dedicada às obras de importantes nomes do cinema, reúne artigos sobre diferentes aspectos da filmografia do diretor norte-americano, provavelmente o mais aclamado de sua geração. A certa altura do capítulo “You Must Remember This”, que aponta as diferenças entre “Munique” e seus outros dramas históricos, Lester D. Friedman faz algumas observações que são relevantes quando pensamos em “The Post: A Guerra Secreta”, trabalho mais recente do cineasta.

Segundo o autor, esses filmes “permitem que gerações de espectadores que nunca vivenciaram um acontecimento diretamente participem dele na imaginação” e “revelam tanto sobre o período em que foram feitos quanto sobre o período que retratam”. São duas características que soam quase obrigatórias para o gênero, mas que poucos realizadores integram conscientemente e com tanta qualidade às suas narrativas. Não é coincidência, portanto, que Spielberg tenha decidido abordar a defesa da liberdade de imprensa no atual contexto político dos Estados Unidos, nem que no centro da resistência esteja uma mulher em posição de comando — uma das raras protagonistas femininas em sua longa trajetória na função.

[quoteesquerda]Não é coincidência que Spielberg tenha decidido abordar a defesa da liberdade de imprensa no atual contexto político dos Estados Unidos[/quoteesquerda]

“The Post” se passa em 1971, mas conversa diretamente com 2017. Na trama, somos apresentados a Katharine Graham (Meryl Streep) em um momento decisivo. À frente de um jornal que tenta se provar relevante e diante dos ataques do governo Richard Nixon contra a imprensa, que causam dano até no gigante The New York Times, ela precisa decidir se publica ou não segredos comprometedores sobre o envolvimento histórico do país na Guerra do Vietnã. No próprio meio, porém, enfrenta resistência para ser ouvida, sendo frequentemente ignorada ou confrontada sem propósito pelos homens que cruzam seu caminho.

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As reuniões a que Kay comparece, seja para discutir a viabilidade das matérias sobre o Pentágono ou tentar garantir o financiamento da redação, são marcadas pelo desgaste que causam. Nelas, Spielberg enche a tela de rostos masculinos que cercam a personagem por todos os lados e a impedem de ocupar devidamente seu espaço. Mesmo quando ela deixa a sala, o incômodo permanece: as vozes dos sujeitos que a contestaram ainda podem ser ouvidas de dentro de seu escritório, ao passo que uma celebração com amigos em casa é interrompida pelo chamado ao telefone para uma ligação importante.

[quotedireita]Spielberg enche a tela de rostos masculinos que cercam a personagem por todos os lados e impedem a protagonista de ocupar devidamente seu espaço[/quotedireita]

Situações como essas são tão comuns no roteiro de Liz Hannah (estreante em longas) e Josh Singer (de “Spotlight”) quanto os debates sobre liberdade e democracia. Os obstáculos forçam a protagonista a se posicionar de outra forma para assegurar que suas decisões sejam levadas adiante, e Streep adapta sua postura com perfeição. Com o tempo, a câmera de Janusz Kaminski (antigo colaborador de Spielberg) também passa a enquadrá-la cada vez mais de frente, num ângulo de baixo para cima e com um movimento lento de aproximação que não deixa dúvidas com relação à sua condição de liderança. Além disso, trechos como aquele em que uma multidão de mulheres de todas as idades a recepciona na saída de um tribunal ajudam a criar um forte contraste com seu isolamento no início do longa — sinal de uma mudança que se anuncia.

Steven Spielberg no set

Quem a acompanha na batalha é Ben Bradlee (Tom Hanks), editor do Post no período e responsável por construir a ponte entre a dona do jornal e a redação. Quando estão juntos em cena, é curioso notar como Spielberg escolhe deixá-los à vontade, adiando cada corte o máximo possível e permitindo que interrompam as falas um do outro antes que uma decisão coletiva apareça. Grandes atores que são, eles dão corpo às principais ideias do diretor e conferem um senso de responsabilidade indispensável para sua proposta. São as convicções da dupla que colocam a trama em movimento, abrindo espaço para os demais membros de um elenco recheado, e que permitem que o filme dê atenção para outro aspecto fundamental na narrativa: o exercício do jornalismo.

As máquinas de datilografia e as prensas são objetos estranhos para as gerações mais jovens, mas a dedicação de Spielberg ao processo de investigação e elaboração das matérias torna tudo bastante natural, como se fosse parte do nosso cotidiano — seguindo a mesma lógica — ainda hoje. A atenção ao procedimento, auxiliada também pela reconstrução detalhada da época, coloca o espectador próximo da ação. Assim, “correr atrás da notícia” se torna mais que uma simples expressão lançada ao vento, mas a definição do que Graham e Bradlee, com o espectador a tiracolo,  fazem ao lado do repórter Ben Bagdikian (Bob Odenkirk) e companhia.

[quotedireita]Grandes atores que são, Streep e Hanks dão corpo às principais ideias do diretor e conferem um senso de responsabilidade indispensável para sua proposta[/quotedireita]

Nesse sentido, as semelhanças com “Todos os Homens do Presidente” são claras. Os dois filmes são irmãos tematicamente e se valem de uma série de elementos comuns, como a relação dos jornalistas com suas fontes e a necessidade de oferecer proteção aos informantes. Ainda assim, as decisões de Spielberg parecem querer imprimir em “The Post” um ritmo acelerado, que o deixa mais próximo da velocidade do cinema contemporâneo. A imersão nesse universo é alcançada pelo trabalho de montagem, através de sequências que enfileiram imagens e sons particulares — os dedos que batem nas teclas apressadamente, o rolo de papel que se arrasta pelo carpete da redação, os vários telefones que tocam simultaneamente trazendo novas pistas. Falta, porém, um vínculo maior entre as ações do diário e as reações da opinião pública, que são frequentemente citadas em diálogos, mas vistas apenas em um ou dois trechos curtos.

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[quoteesquerda]“The Post” vai além de um registro de outra época, é um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre o funcionamento das instituições[/quoteesquerda]

Algo parecido pode ser dito sobre as famílias dos personagens principais. Kay e a filha, Lally (Alison Brie), e Ben e a esposa, Tony (Sarah Paulson), têm alguns momentos de privacidade em que colocam para fora suas dúvidas e temores, mas essas relações praticamente somem no restante do tempo, o que torna suas participações um tanto deslocadas do entorno. Spielberg tem melhor sorte quando toma o ambiente doméstico como base para explicitar as diferenças entre homens e mulheres naquela sociedade, separando os grupos após um jantar com dois planos seguidos carregados de significado.

Seu maior acerto atrás das câmeras, no entanto, surge quando o filme caminha para o desfecho e retoma suas pretensões iniciais. O momento decisivo é aquele em que vemos a silhueta de Nixon, registrada à distância pela janela da Casa Branca, e ouvimos suas gravações originais, que dão o tom da ameaça à liberdade de imprensa. Combinação rara de atemporalidade e especificidade histórica, a junção das duas coisas define “The Post” como algo além de um registro de outra época a ser conhecido, um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre o funcionamento das instituições. Isso é algo que Spielberg tem feito há tempos — e de modo mais direto, mas não menos brilhante, desde “Lincoln” e “Ponte de Espiões”.

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Virgílio Souza

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