Negócios 3 set 2026

Netflix quer provar que menos anúncios podem gerar mais resultado

Empresa apresenta primeiros dados do estudo de atenção no Brasil e questiona a obsessão da publicidade por frequência

Netflix quer provar que menos anúncios podem gerar mais resultado
Amy Reinhard, presidente global de publicidade da Netflix, no Behind The Streams 2026 (Divulgação)

Durante décadas, a publicidade repetiu comerciais à exaustão porque tinha poucas maneiras de saber se alguém estava, de fato, prestando atenção. A Netflix diz que já consegue medir essa atenção e agora quer convencer o mercado de que talvez seja hora de tirar o velho lema “alcance e frequência” do piloto automático.

A provocação apareceu nesta semana, durante a terceira edição do Behind The Streams, evento da plataforma voltado para o mercado publicitário brasileiro.

No ano passado, contei como a Netflix havia escolhido a atenção como argumento para vender seu inventário publicitário. Em maio, veio a etapa seguinte: câmeras instaladas em 250 casas brasileiras para medir para onde as pessoas realmente olhavam enquanto assistiam TV.

Agora chegaram os primeiros resultados.

84% de atenção

Segundo o estudo feito com a Amplified Intelligence, 67% da atenção durante um anúncio na Netflix é ativa, quando a pessoa está olhando diretamente para a tela. Outros 17% são classificados como atenção passiva, quando ela não olha, mas continua ouvindo. Na conta da empresa, 84% do anúncio recebe algum tipo de atenção.

A Netflix diz ainda que, ao contrário de outras mídias, seus comerciais mantêm níveis de atenção próximos aos do conteúdo que os cerca e que esse índice aumenta ao longo da peça.

Will Zanette, líder de Mensuração e Insights de Publicidade da Netflix (Divulgação)

O número, porém, foi só o começo da fala de Will Zanette, líder de Mensuração e Insights de Publicidade da Netflix, que inclusive já participou de um Braincast para tratar do tema. A provocação mais interessante veio quando ele colocou em discussão uma das métricas mais antigas do planejamento de mídia: frequência.

A leitura de Zanette é que a publicidade tratou, durante muito tempo, a frequência quase como obsessão porque era, justamentem uma das poucas coisas que conseguia medir. Quantas vezes alguém precisava ver uma mensagem até lembrar dela? Mas, para o executivo, frequência sempre foi apenas uma aproximação para a pergunta que realmente interessava:

A pessoa prestou atenção, guardou a mensagem e fez alguma coisa depois?

Com mais dados sobre atenção e comportamento, a Netflix diz já enxergar casos em que é possível entregar menos impressões e alcançar o mesmo resultado de negócio, ou até mais.

Isso não significa que a empresa esteja aposentando alcance e frequência, porém. Uma das ferramentas apresentadas permite justamente controlar quantas vezes a mesma pessoa é impactada em diferentes dispositivos. O questionamento se trata de quanto peso essas métricas devem continuar tendo diante de indicadores mais próximos do resultado final.

A “ciência” da Netflix

Foi nesse ponto que o discurso do evento mudou bastante em relação ao ano passado.

A Netflix ainda falou muito em atenção, fandom e nos seus chamados “palcos culturais”, claro. Nas inúmeras séries e filmes aos quais as marcas podem se associar por patrocínio, integração, licenciamento e campanhas especiais. Mas, desta vez, quase toda essa conversa acabava em algum número de negócio. Foi menos desfile de catálogo e lançamentos, como em 2025, e mais mídia kit.

Leo Khéde, diretor sênior de Publicidade da Netflix para a América Latina, conta a expansão de formatos na plataforma (Divulgação)

Aliás, a própria Netflix insiste há algum tempo em descrever sua operação publicitária como a combinação de “arte e ciência”. A arte está nas histórias, personagens e fandoms que colocam a plataforma na conversa cultural. A ciência é a parte que, com mais ferramentas de veiculação e mensuração, começa a ganhar valor maior para o anunciante.

Leo Khéde, diretor sênior de Publicidade da Netflix para a América Latina, explicou que essa ciência passa por usar dados e sinais de comportamento para entender com quem uma marca deve falar, sobre o quê e em qual momento.

Num papo exclusivo que tive com ele e Amy Reinhard, presidente global de publicidade da Netflix, esse argumento apareceu várias vezes. Quanto mais a plataforma entende o que alguém assiste, mais sinais consegue gerar para recomendação, segmentação e mensuração. Amy disse que a ambição é transformar a Netflix em uma solução de funil completo, capaz de provar resultados diferentes conforme o objetivo de cada anunciante.

E existe escala suficiente para a empresa levar essa conversa a sério: no Brasil, o plano com anúncios alcança mais de 35 milhões de espectadores ativos mensais, e mais de 65% das novas assinaturas já escolhem essa modalidade, segundo os dados atualizados apresentados no evento.

Do fandom para o caixa

A Netflix apresentou resultados de Brand Lift, consideração e intenção de compra e afirmou que uma meta-análise de campanhas brasileiras encontrou retorno de cinco vezes o investimento. Segundo a empresa, suas campanhas também ficaram acima dos benchmarks do mercado em associação de mensagem, consideração e intenção de compra.

O caso de Comfort com Bridgerton apareceu como exemplo mais palpável dessa passagem da afinidade para o caixa: de acordo com a Netflix, o envolvimento dos fãs levou a Unilever a produzir quase cinco vezes mais produtos da colaboração.

Houve outros cases apresentados com vendas, busca e market share. A mensagem se repetiu ao longo da tarde é que estar perto de uma série popular é bom (a minissérie Brasil 70 atraiu cinco marcas, por exemplo), mas a Netflix quer demonstrar que consegue mexer o ponteiro do negócio.

Em 2027, a empresa anunciou que pretende ampliar suas próprias ferramentas de mensuração com dados primários, incluindo Brand Lift, Conversion Lift e Geo Lift, além de permitir que anunciantes cruzem seus dados com os sinais da plataforma. O evento terminou, inclusive, com a Netflix prometendo aos parceiros criatividade, tecnologia e uma “obsessão com resultados”.

Por que bater na frequência?

Saí do Behind The Streams pensando especialmente nisso. Por que a Netflix escolheu justamente a frequência, uma das métricas mais estabelecidas da publicidade, para questionar?

Parte da resposta está nos próprios números apresentados, mas existe também uma escolha de campo de batalha.

O YouTube, concorrente direto assumido por Ted Sarandos, oferece aos anunciantes uma combinação difícil de enfrentar: escala gigantesca, métricas de engajamento e ferramentas que conectam campanhas a busca, consideração, conversão e venda. A Netflix dificilmente vai ganhar essa disputa simplesmente oferecendo mais impressões.

Talentos e executivos da Netflix no Behind The Streams 2026 (Divulgação)

E também existe um limite para tentar. No YouTube, o acesso é aberto e o usuário paga para remover anúncios. Na Netflix, a publicidade vive dentro de um plano mais barato, mas pelo qual o assinante continua pagando. Aumentar demais a carga comercial acabaria prejudicando justamente a experiência que a empresa usa para defender sua vantagem em atenção.

A Netflix até vem experimentando novos formatos, de vídeos verticais a conteúdo curto licenciado, numa expansão que eu, particularmente, adoraria fingir que não existe quando abro o aplicativo. Mas, ainda assim, isso não transforma a plataforma numa máquina de inventário comparável ao YouTube.

Então a conta precisa incluir outra coisa: quanto vale cada exposição. Se um anúncio diante de alguém realmente atento produz mais lembrança, consideração ou venda, a quantidade de vezes que ele apareceu deixa de explicar tudo e o anunciante/agência para de ficar obcecado com essa métrica.

Além disso, como a própria Netflix já cansou de repetir de inúmeras maneiras possíveis, tem o argumento do ambiente em que essa exposição acontece.

A empresa prevê investir cerca de US$ 20 bilhões em conteúdo em 2026. É esse dinheiro capaz de colocar uma marca, por exemplo, ao lado de Bridgerton, Stranger Things, Emily in Paris e outras produções com fandom global, elenco conhecido e um ambiente muito mais controlado do que o inventário quase infinito (e muitas vezes indesejado) produzido diariamente no YouTube.

As duas empresas, afinal, financiam conteúdo de maneiras bem diferentes. O YouTube construiu sua escala deixando creators produzirem e dividindo com eles a receita publicitária. Quanto mais anúncio exibido, melhor. Já a Netflix gasta bilhões produzindo e licenciando aquilo que constrói cultura, ganha prêmios e faz as pessoas manterem suas assinaturas ativas. Quanto mais anúncio, pior.

É aí que questionar a frequência ganha sua verdadeira dimensão. A Netflix não precisa convencer o mercado apenas de que seus anúncios recebem atenção. Precisa convencer que essa combinação de “arte e ciência”, com atenção, dados, contexto e conteúdo faz cada impressão valer mais.

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Carlos Merigo

Carlos Merigo

Fundador do B9, host do Braincast e Cinemático. Escreve sobre mídia, publicidade e cultura digital há mais de 20 anos (geralmente tentando entender o hype antes que ele vire PowerPoint).

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