"Sonic: O Filme" reduz personagem a bichinho de estimação que faz piadas
Apesar dos esforços de Jim Carrey, filme inspirado nos jogos da SEGA nunca se rende à fantasia

O filme que leva às telas de cinema o famoso ouriço azul da Sega é problemático desde seus primeiros pôsteres. Quando o primeiro trailer de "Sonic: O Filme" foi divulgado, a internet não perdoou; não faltaram críticas ao visual, que deixava de lado a aparência clássica do personagem dos videogames e apostava em algo um pouco mais "humanizado", com olhos pequenos, pernas longas e dentição exageradamente humanoide. Eis então que veio a surpresa: Jeff Fowler, diretor do filme, decidiu, em conjunto com o estúdio, adiar o lançamento do projeto para refazer todo o seu visual.
O filme agora finalmente está estreando e a sensação é que, no processo de reconstrução do personagem, houve um cerceamento artístico que fez com que "Sonic" não se tornasse nada além de a sombra de um bom filme. Nas mãos da Paramount, a produção tinha a missão de levar ao cinema uma tradicional franquia dos games, iniciada nos anos 90 com o Master System. Mesmo assim, a obra de Fowler descarta a gamificação do filme e utiliza a marca apenas como ponto de partida e chamariz mercadológico para apresentar uma aventura infanto-juvenil sobre um ouriço que precisa salvar o mundo da ameaça trazida pelo cientista e terrorista Robotinik (Jim Carrey).
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Levando em conta as recentes adaptações de games, o filme do Sonic está mais próximo de "Pokémon: Detetive Pikachu". Tanto a produção de Fowler quanto a de Rob Letterman utilizam essas figuras consagradas apenas como pele para histórias bem mais simples – no caso de "Sonic", a típica aventura de um herói que procura seu lugar no mundo, enquanto "Pikachu" traduz isso em uma trama de investigação com raízes no noir.
Quando me refiro a "Sonic" como "sombra de um bom filme", é porque fica nítido que Fowler tem certo carinho pelo personagem e quer pôr na tela cenas que marcaram a série de jogos. O diretor mostra seu protagonista correndo, saltando e lutando com entusiasmo admirável e que, para além dos valores técnicos, entretém por realizar tudo de forma visualmente simples e despojada. O longa rejeita qualquer complexidade para que sua narrativa seja guiada por imagens simples, como um raio de luz percorrendo as ruas de São Francisco.
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[quotedireita]"Sonic" não consegue se tornar nada além da sombra de um bom filme que não existiu[/quotedireita]
O que pesa negativamente, porém, é a total ausência de articulação dos personagens humanos – com exceção do surtado Robotinik de Carrey. O casal que ajuda Sonic, o Tom e Maddie vividos respectivamente por James Marsden e Tika Sumpter, são um problema por exemplo: talvez por inexperiência, o diretor não consegue convencer seus atores de que eles não estão sozinhos no set mas diante de uma ameaça física, e quando a dupla de humanos se vê diante de um arsenal militar pronto para eliminá-los eles sequer tentam apresentar uma expressão de medo ou apreensão.
Todo o esforço do filme reside na estética fantasiosa inerente ao protagonista e aos esforços extremamente caricaturais (no bom sentido) de Jim Carrey. Com isso, herói e vilão parecem personagens de um filme de cineastas como as Wachowski, especialistas em fazer o ridículo e o fantástico parecerem verossímeis, enquanto todos os demais personagens destoam. É uma narrativa de uma nota só, na qual tudo o que é real parece falso enquanto tudo o que é falso convence como real.
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[quoteesquerda]É uma narrativa de uma nota só, onde tudo que é real parece falso enquanto tudo que é falso convence como real[/quoteesquerda]
Talvez o grande problema não seja apenas a dificuldade de Fowler de encontrar um equilíbrio entre os personagens reais e o caricatos. É claro também que o filme passou por revisões durante seu processo de montagem, com diversas cenas sendo cortadas abruptamente e utilizando cortes bastante secos. Porém, isso parece acontecer não por ineficiência dos montadores Debra Neil-Sicher e Stacey Schroeder, mas por uma demanda "superior", uma necessidade de tornar "Sonic" a obra mais palatável possível para o grande público. O longa esvazia qualquer dramaticidade em prol de cenas que funcionem apenas como humor e, no caminho para isso, se torna uma obra opaca.
Muitos defenderiam uma obra do tipo com o argumento de que se trata de um filme para crianças. Ora, filmes infantis também podem ter alguma complexidade temática. A saga "Toy Story" está aí, há anos debatendo temas como abandono, família e empoderamento pessoal, sem que deixe de oferecer entretenimento de qualidade. No caso de "Sonic", o que temos é apenas um filme bastante genérico, que ocasionalmente é salvo pelos surtos de Jim Carrey ou pelo humor de seu protagonista, mas que jamais tem a coragem de se entregar ao fantástico.
Em "Sonic: O Filme", o fantástico e o irreal existem apenas para ser domesticados pelo mundo real. É uma obra que apresenta como vitória para um ser de outra dimensão, se tornar um bichinho de estimação. Ironicamente, o Sonic do filme encerra sua jornada fazendo o oposto do que o Sonic dos jogos de Master System, já que este último libertava um grupo de animais ao final de cada fase.
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