Steven Spielberg no SXSW 2026: aliens, IA, cinema e o novo filme ‘Dia D’
No SXSW, o diretor de “E.T.” e “Contatos Imediatos” defendeu sua crença em vida extraterrestre — e revelou detalhes do thriller “Dia D” previsto para junho

Steven Spielberg passou uma hora no SXSW convencendo a plateia de que não estamos sozinhos no universo. O irônico: ele parece ser o único na sala que nunca viu um OVNI.
"Já fiz Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Não tive nem um encontro de primeiro grau", disse, arrancando risos. "Onde está a justiça nisso? Se alguém lá fora estiver ouvindo, estou falando com você."
A conversa, uma gravação ao vivo do podcast The Big Picture com o apresentador Sean Fennessey, serviu de palco para a promoção de Dia D, thriller de invasão alienígena com Emily Blunt, Josh O'Connor e Colin Firth, previsto para 12 de junho. Mas foi muito além do press tour.
Por que importa: Spielberg não é só um diretor promovendo um filme. Ele é o homem que moldou como o cinema popular pensa sobre aliens, tecnologia e medo coletivo. Quando ele fala sobre o estado do cinema ou sobre inteligência artificial, não é opinião de mais um veterano, é perspectiva histórica.
O que reinventou o interesse:
Em 2017, o New York Times publicou uma reportagem sobre pilotos da Marinha americana que registraram fenômenos aéreos inexplicáveis durante voos em caças F/A-18. Spielberg disse que o artigo, escrito por Helene Cooper, Rosenthal e Leslie Keane, reacendeu seu interesse pelo tema pela primeira vez em décadas. Em 2023, uma audiência no Congresso americano — com depoimentos sob juramento de ex-militares e um profissional de inteligência — consolidou a convicção.
"Não tenho nenhuma informação exclusiva que qualquer um de vocês não tenha", admitiu. "Mas tenho uma fortíssima suspeita de que não estamos sozinhos aqui na Terra agora. Talvez hoje mesmo."
O novo filme parte dessa tese. Sem revelar detalhes do roteiro — escrito por David Kapp, a partir de uma história de 50 páginas que o próprio Spielberg desenvolveu em 2023 —, o diretor disse que Dia D explora a disrupção social e teológica que ocorreria caso a humanidade descobrisse não apenas evidências de vida extraterrestre, mas que o contato já acontece há décadas. "Não acho que seria uma disrupção letal. Mas seria uma disrupção."

E a IA? Spielberg foi explícito sobre sua posição em relação à IA: nunca usou em nenhum de seus filmes, e não pretende.
"Sou a favor da IA em muitas disciplinas. Não sou a favor da IA se ela substitui um indivíduo criativo."
Em sua sala de roteiristas de TV, disse, "todas as cadeiras estão ocupadas. Não tem nenhuma cadeira vazia com um laptop na frente."
A fala ganhou peso no contexto de Austin. O SXSW deste ano concentrou parte de seu debate exatamente em onde a IA entra — e onde não deveria entrar — no processo criativo. Spielberg não discursou. Só delimitou.
O Instagram e a perda de tempo: Numa das melhores histórias da conversa, Spielberg contou que instalou o Instagram no celular por duas semanas. "Tive o que chamo de 'tempo perdido', como se tivesse sido abduzido por aliens. Para onde foi aquele tempo?" Desde então, nada de redes sociais.
Sobre cinema e salas: Com a polêmica de Timothée Chalamet sobre ballet e ópera ainda fresca no debate cultural, Spielberg entrou na discussão sem citar o ator. Descreveu a experiência coletiva do cinema como insubstituível — e incluiu shows, ballet e ópera na mesma categoria de experiências que reúnem estranhos numa sala escura e os fazem sair unidos. A plateia aplaudiu. O subtexto era óbvio.
"O que eu posso fazer é tentar fazer filmes que as pessoas queiram sair de casa para ver. Hoje isso é um esforço, porque o iPhone criou uma conveniência portátil que nunca existiu antes."
O western: Spielberg confirmou que está desenvolvendo um faroeste, mas sem tropeçar em nenhum clichê do gênero. "Sem tropes." Recusou mais detalhes, mas a confirmação por si é notícia: é um projeto que ele carrega há décadas.
Dia D chega em junho com toda a expectativa que o nome Spielberg carrega. O que ficou mais claro no SXSW é que, aos 79 anos, Spielberg não está no modo legado. Ele está no modo filmmaker. Não olha para trás, não fica recontando glórias, não aceita o papel de monumento. Citou Noel Coward para justificar sua visão de carreira: "Nunca saia pelo mesmo buraco duas vezes."
Poucas pessoas no cinema seguiram esse princípio com mais consistência — de Tubarão a Lista de Schindler, de Minority Report a Os Fabelmans. Dia D é mais uma dessas apostas. E se a suspeita dele sobre alienígenas estiver certa, talvez seja o filme mais oportuno da sua carreira.



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