Homem-Aranha, “Longe de Casa” e a perpétua ilusão da mudança

Como a sequência das aventuras do amigão da vizinhança reforça as principais forças por trás do sucesso da “fórmula” do Marvel Studios hoje

por Pedro Strazza

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme e de “Vingadores: Ultimato”.

Conversa-se muito hoje sobre o sucesso da tal “fórmula Marvel” que o Marvel Studios vem aplicando de maneira meticulosa em todas os seus longas desde sua fundação com o primeiro “Homem de Ferro” e sobre como esta estruturação ajudou a acondicionar o seu público para o que no fundo é um mesmo tipo de produção embalado e vendido de diferentes formas, cores e sabores. A discussão tem lá seu fundo de verdade: próximo de alcançar a sequência de 25 sucessos de público e bilheteria sem nenhum sinal de esgotamento no horizonte, é difícil para alguns não encarar esta dominação do estúdio na cultura pop sem um pouco de ceticismo, na busca não apenas de compreender mas também de antever um mecanismo que dispare algum ruptura na linha industrial semi-fordiana destes blockbusters – especialmente num momento posterior ao impacto fulminante de “Vingadores: Ultimato” nos cinemas de todo o globo.

Ainda que estas discussões se concentrem em “derrubar o mamute” e provar de novo e de novo a redundância e o caráter genérico destes produtos, entretanto, elas talvez falhem em reconhecer as forças que mantém esta “fórmula” (cujos números e/ou ingredientes sempre se confundem) tão intacta no cenário atual de Hollywood. Não que dê para chamar estes fundamentos de “virtudes” de um suposto “estilo” do estúdio, mas é inegável o quanto esta mesma habilidade do Marvel Studios em reinventar seu “produto” três vezes ao ano é capaz de manter o público ainda interessado em seus rumos, sejam eles no aspecto macro (do universo cinematográfico responsável por unir todos os projetos) ao micro (no tocante aos personagens). É uma espécie de grande adaptação do lema “mudar sem mudar”, um que é regra nos quadrinhos desde seus primeiros anos de sucesso e o qual cada filme enquadra a seu jeito e propósito.

No caso de “Homem-Aranha: Longe de Casa”, esta dinâmica talvez seja mais interessante de se observar por conta do caráter simultaneamente episódico e final que a produção de Jon Watts busca encarnar, apesar do paradoxo despertado entre estas duas partes. De um lado, temos uma sequência das aventuras do herói aracnídeo vivido por Tom Holland que almeja preservar a rotina adolescente de seu antecessor, até por conta do perfil jovem de seu protagonista; do outro, o longa chega como espécie de epílogo a um primeiro grande ciclo do estúdio com sua grande trama interconectada, na esteira dos eventos bombásticos do último “Vingadores” que em si serviam de ponto final a toda esta década de sucesso do projeto da Marvel nos cinemas. Como conciliar esferas tão distintas é antes de tudo o principal malabarismo que cabe ao filme resolver, e sua resposta para este dilema mora justo nos meandros desta formatação básica de sua linha de produção.

O diretor Jon Watts no set do filme

Isso porque o roteiro de Erik Sommers e Chris McKenna é na base uma grande reciclagem da estrutura de “De Volta ao Lar”, reaproveitando não apenas temas como tiques narrativos para aplicá-los em um contexto ainda mais amplo. A maior mudança, afinal, está mesmo na saída do bairro do Queens onde a ação do primeiro se concentrava para explorar lugares diferentes do globo à partir de uma excursão escolar promovida pela escola de Peter Parker (Tom Holland), uma expansão que permite aos roteiristas e ao diretor a possibilidade de manter a narrativa de amadurecimento do protagonista enquanto super-herói de forma a abraçar a divisão entre a aventura localizada e a epopeia contida sem se fazer soar muito repetitivo nos temas. Não que isso signifique que tudo saia conforme o planejado: é difícil não assistir “Longe de Casa” sem vez ou outra cair na sensação de se estar reassistindo seu antecessor, muito pela repetição de batidas que vão da reviravolta e características amarguradas do vilão com o status quo à lição a ser aprendida pelo amigão da vizinhança.

O sentimento de déjà vu, porém, acontece no filme menos como uma consequência desmedida de seus criadores, surgindo (curiosamente) para atender um propósito de permanência que parece inspirado na longa tradição novelesca adolescente dos quadrinhos nos quais se inspira, traduzido em um jogo de perspectiva que escapa do viés rotineiro do mundinho dos heróis protagonistas. É uma tendência que “De Volta ao Lar” já sugeria, mas aqui se faz mais presente graças à centralidade da turma de Peter aos eventos da história e a própria ameaça da vez, os grandes jogos de ilusão de Mysterio (Jake Gyllenhaal) cujo grau de manipulação se revela o maior chamariz da continuação.

É difícil não assistir “Longe de Casa” sem vez ou outra cair na sensação de se estar reassistindo seu antecessor

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Além das dinâmicas de relacionamento se graduarem a um dos pontos de foco do roteiro, nunca há na narrativa um momento de luta em que os eventos mostrados não estejam sendo encenados diante de um ponto de vista humano, um fator que mesmo bastante utilizado no filme para fins de comédia (o “Macaco Noturno”, as reações desmedidas de determinados personagens ao perigo) encontra lá seus pontos nos anseios da crise de confiança do herói perante a perda do mentor Tony Stark. É justo esta dualidade entre o indivíduo e a figura mitológica que timidamente move a continuação dentro de suas obrigações, mas ela pertence menos a Parker e sua dificuldade em aceitar o protagonismo maior de segurança que aos personagens secundários, cujas incursões pontuais pelas batalhas reforçam o quanto a natureza deste espetáculo de monstros e colantes inclui além do espectador o mundo à volta dos acontecimentos.

O problema desta lógica, entretanto, é que tirando o comentário metalinguístico sugerido (o fato de Mysterio usar um macacão de efeitos visuais é em si divertido, mas fora do campo do humor não leva a grandes tiradas sobre a criação do estúdio no departamento) ela é em si uma repetição de tema de “Capitão América: Guerra Civil”, despido de pomposidade maior e numa perspectiva invertida – não temos aqui uma Alfre Woodard conscientizando Stark das consequências de seus atos, por exemplo. É uma condição que somada ao caráter intrínseco de repetição da produção em teoria levaria a sequência a um ponto de crise próprio, ressaltando um esgotamento que contaminaria o longa em seus propósitos e terminaria desmontando toda a estrutura como um gigantesco castelo de cartas assombrado por uma lufada de vento.

É a dualidade entre o indivíduo e a figura mitológica que timidamente move a continuação dentro de suas obrigações

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O curioso neste desmonte é que ele nunca chega a acontecer na narrativa, e é aí que se faz valer a dinâmica novelesca dos quadrinhos. É como se o filme já esperasse as limitações de suas próprias estruturações, pois todos os seus momentos subexistem na comédia do comentário externo à ação, desde a construção da relação entre Peter e MJ (Zendaya) à participação dos jovens no clímax maior da história. É a rotina das produções do Marvel Studios executada de novo sem qualquer variação inédita, mas seu caráter automatizado nem se faz sentir nos meandros da história: dilemas e dramas vem e vão sem nunca serem abordados direito pela narrativa, mas isso não impede a sequência de se manter em movimento e o espectador de se manter atento aos próximos eventos, mesmo estes não alterando em nada o desenrolar da trama e o arco de seu protagonista.

É justo este reforço da ilusão de mudança que faz de “Longe de Casa”, se não um dos melhores, um dos retratos mais verossímeis do que é o método de produção de seu estúdio hoje. E o filme nem parece querer esconder muito a trucagem de seu procedimento, seja no final pelos tapumes de obra que anunciam de maneira sutil ao espectador que ele “mal pode esperar para ver” o que está sendo preparado nos bastidores (e ao qual seus personagens rumam sem perceber), seja nas cenas pós-créditos as quais sem nenhum pudor engatilham o público para os próximos acontecimentos bombásticos de sua novela favorita. Pode se criticar a vontade a formulação por trás deste cinema de alto orçamento, mas é difícil negar sua eficácia.

nota do crítico

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