Davi Calil e as oportunidades do mercado independente de quadrinhos
Em entrevista ao B9, o pintor, quadrinista e ilustrador fala do futuro das HQs brasileiras além da “Turma da Mônica”

Um pensamento que já teve o prazo de validade expirado é o de que história em quadrinhos no Brasil se resume à “Turma da Mônica”. Mauricio de Sousa esteve - e ainda está - presente na vida de muitos brasileiros desde o momento da alfabetização e é certo que ainda vai fazer companhia para muitos novos leitores, mas não, a produção brasileira não se resume à garotinha do vestido vermelho.
A cada ano que passa novos artistas vão se moldando e arranjando maneiras de mostrarem seus trabalhos ao público - seja através de publicação com editoras, páginas em redes sociais, projetos de financiamento coletivo ou mesmo investindo dinheiro do próprio bolso para imprimir e distribuir a quem se interessar.
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O Artists' Alley, da CCXP, reuniu mais de 300 artistas independentes nessa edição de 2016, mas não é só lá que a galera se esbarra. Na Bienal de Quadrinhos de Curitiba - que aconteceu entre os dias 8 e 11 de setembro no MuMA - encontrei grandes ideias e artistas, novos e em ascensão, ansiosos para alcançarem um novo público, e pude conhecer pessoalmente alguém que eu já admirava pelas obras publicadas: Davi Calil.
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Pintor, quadrinista e ilustrador paulista, Davi Calil começou a carreira publicando histórias ilustradas em algumas revistas até criar a editora independente Dead Hamster Comics, onde lançou algumas de suas obras, entre elas “Quaisqualigundum” (com roteiro de Roger Cruz) e “Surubotron”. Ele também participou da colorização do álbum “Turma da Mata - Muralha”, da Graphic MSP, mas em julho de 2016, depois de 3 anos de muito trabalho, “Uma Noite em L'Enfer” chegou às livrarias em um acabamento de primeira e pelas mãos da Editora MINO. "Era um trabalho tão grande que eu achava que ele merecia o cuidado de uma editora", conta o artista.
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Calil desenha desde criança - aos nove anos ele começou a estudar num ateliê de Guararema (interior de São Paulo), onde teve contato com seus primeiros livros de pintura. Sua formação foi se moldando ano após ano, mas o traço amadureceu muito quando se dedicou aos quadrinhos e admitiu o próprio estilo. "No começo os desenhos eram ruins de doer, mas aos poucos eles foram melhorando e quando me dei conta já estava trabalhando como ilustrador", comenta.
Ele contou com o apoio dos pais desde pequeno e, "quando algum trabalho meu saía em revistas e jornais, a preocupação da minha mãe de que eu ia morrer de fome ia embora. Parece que ser publicado 'é de verdade'. Eu queria trilhar o caminho de publicar com uma editora e ver meu trabalho numa livraria - L'Enfer já ficou ao lado do Asimov e eu fiquei super feliz, esse é o tipo de experiência que você raramente tem quando publica de maneira independente."
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[quotedireita]Uma Noite em L'Enfer é uma graphic novel recheada de referências e homenagens à grandes artistas como Van Gogh, Klimt e Goya[/quotedireita]
Num evento como a Bienal de Quadrinhos em que os artistas independentes são maioria, é normal se perguntar as diferenças práticas e subjetivas de ter o apoio de uma editora ou fazer tudo sozinho. Quando o trabalho fica inteiramente por conta do autor, muitas vezes ele não consegue explorar o entorno da obra por estar preocupado em escrever, ilustrar, revisar, finalizar, imprimir e colocar na mão de novos leitores.
"A maior parte das pessoas não é obcecada por pintura como eu sou, então L'Enfer tem vários easter eggs que podem passar batidos pelo público, mas quem está familiarizado com o universo da pintura vai reconhecer uma ou outra e se perguntar se tem mais", explica o ilustrador. Muitos dos quadros da graphic novel fazem referências à grandes obras de Gauguin, Toulouse-Lautrec, Klimt, Van Gogh, entre outros, e a editora Mino criou painéis especiais para sinalizar algumas dessas pequenas homenagens. "Eu falei sobre isso na editora e eles se empolgaram em produzir esse material para divulgação de L'Enfer" - que, aliás, você pode ver aqui.
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Gustavo Borges, autor de “Pétalas” (um dos projetos mais bem-sucedidos do Catarse), comentou em uma das mesas promovidas pelo evento que acredita que o mercado de quadrinhos no Brasil ainda se limita a um ovo que vai quebrar a casca em breve para sair do nicho, e que talvez essa geração de artistas ainda precise lidar com muitas questões para conseguir espaço, mas a próxima já vai se posicionar num mercado mais maduro e com mais oportunidades.
O velho ainda não morreu, o novo ainda não nasceu. É o que a gente vive na mídia impressa. O papel não morreu, e dificilmente vai, mas o digital ainda não se estabeleceu"
Ele acredita que, com o tempo, a impressão em papel vai se limitar a coisas mais relevantes e caprichosas, daquelas que o leitor quer colecionar. "Eu estou trabalhando numa web comic agora e meu plano é lançar essa história de maneira gratuita e deixá-la ao alcance de muito mais gente do que uma tiragem impressa iria. E se eu vier a imprimir essa história depois, a pessoa vai ler online, gostar e aí sim buscar a edição física como algo para colecionar, e não porque o único jeito de ter acesso a ela é comprando na livraria", opina.
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[quoteesquerda]"...os artistas em L'Enfer estão em um bar, contando histórias desgraçadas, bebendo muito e ninguém sabe o que é verdade ou não." - Davi Calil[/quoteesquerda]
Como forma de complemento a essa visão das obras digitais, no posfácio de Luis Bueno para Uma Noite em L'Enfer a gente encontra um trecho em particular que fala sobre o otimismo vivido no final do século XIX com a expectativa de que a Revolução Industrial e a riqueza gerada a partir dela mudaria tudo, e que a tecnologia alcançaria patamares antes apenas imaginados. Isso se concretizou, de fato, mas a mesma tecnologia usada para construir pode ser usada para destruir e tivemos que enfrentar crises, duas guerras mundiais e ainda tocar a vida sob um clima de ameaça constante.
"O que a gente vive hoje, na virada do século XX, é muito parecido com aquela época, no sentido de apostar em algo que vai mudar tudo. Todo mundo achou que a internet resolveria os problemas do mundo: todos iriam se comunicar, se unir, se aproximar. Lógico que vieram muitas coisas boas disso, mas você também aumentou o discurso de ódio, a intolerância em todas as áreas, a exposição e etc", complementa o artista.
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Considerando que, na internet, nenhum erro passa batido, pergunto se “Uma Noite em L'Enfer” chegou a sofrer alguma crítica por conta da liberdade poética utilizada na obra - afinal de contas a história começa quando Van Gogh se recupera do tiro que, na realidade, lhe tirou a vida, e vai parar em um cabaré parisiense com outros artistas que não se cruzaram na época para contar histórias de morte, sexo e mistério.
"Eu ainda não tenho tantos trabalhos autorais que me tenham feito sair da zona de conforto. Antes de ser quadrinista, sou pintor, então esse é um assunto que eu consigo explorar com tranquilidade, mas os artistas em L'Enfer estão em um bar, contando histórias desgraçadas, bebendo muito e ninguém sabe o que é verdade ou não. Como tem esse humor por cima, a pessoa não se sente apta a cobrar veracidade de uma história que já se mostra caricata. Se eu tivesse a pretensão do James Cameron ao fazer o filme do Titanic com 'os acontecimentos mais próximos da realidade', eu teria que lidar com Neil deGrasse Tyson dizendo que a posição das estrelas no céu no dia que o Titanic naufragou não era aquela", brinca ele ao se referir ao comentário de Tyson que fez Cameron editar o próprio filme anos depois.
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“Uma Noite em L'Enfer” está conquistando novos leitores - e elogios - a cada semana. Em paralelo, Davi Calil também participa de exposições e dá aulas em uma academia de artes em São Paulo.
Eu tenho um curso com uma técnica de Pintura Relâmpago, então além de ensinar algo eu tenho que produzir e mostrar um processo eficiente"
Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é uma habilidade que foi adquirida com a prática. E praticar é o segredo para ver resultados (Mr. Miyagi que o diga). A maior dificuldade dos alunos é a falta de paciência e perseverança - muitos já querem produzir coisas incríveis na primeira aula e se frustram quando isso não acontece. Um dos primeiros animadores da Disney, Walt Stanchfield, disse certa vez que todos temos 10 mil desenhos ruins dentro de nós e quanto antes nos livrarmos deles, melhor. "Eu gosto desta ideia, acho que com a pintura é a mesma coisa, os desenhos bons só vão sair quando você gastar os que não prestam", complementa Calil.
[quotedireita]"Todos temos 10 mil desenhos ruins dentro de nós. Quanto antes nos livrarmos deles, melhor." - Walt Stanchfield[/quotedireita]
A web comic de Davi Calil se chama “Kung Fu Ganja” e foi lançada no final de novembro. O artista já tem muita coisa adiantada para poder manter o ritmo de produção no próximo ano, mas parte do primeiro capítulo já está disponível para leitura gratuita no Tapastic. "Tenho escutado muitos audiobooks para manter a leitura em dia e, pra falar a verdade, agora estou pesquisando bastante para o Kung Fu Ganja, então passei a buscar materiais sobre a história da China para aprimorar os roteiros". Você pode acompanhar as novidades do projeto na página criada especialmente para o Kung Fu Ganja no Facebook. "Quero dar esse passo e espero que a obra chegue em muito mais pessoas", finaliza.
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Enquanto as grandes livrarias ainda separam um espaço modesto aos quadrinhos nacionais, já existem algumas lojas inteiramente dedicadas à venda de trabalhos independentes, autorais, diferentes - além, é claro, do apoio que os autores podem buscar na internet com leitores, blogueiros, youtubers e toda essa galera que consome, sim, Turma da Mônica, mas também outras obras tão legais quanto. Opções não faltam, nem para o leitor, nem para o autor.
Raquel Moritz é publicitária, publica vídeos e textos sobre literatura e quadrinhos no Pipoca Musical e, por mais que tente, não consegue nem desenhar boneco palito.



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