Com foco no folclore brasileiro, “Cidade Invisível” é nosso “Deuses Americanos” – para o bem e para o mal

Com produção de Carlos Saldanha, série explora a riqueza das lendas brasileiras, mas com uma execução bem questionável

por Soraia Alves

A premissa de “Cidade Invisível”, nova série brasileira da Netflix produzida por Carlos Saldanha (“Rio”, “A Era do Gelo”) e estrelada por Marco Pigossi, é o que a atração tem de melhor. A ideia de explorar o folclore brasileiro com um olhar adulto e atual, inserindo seres fantásticos como a Cuca, o Saci e a sereia Iara em meio à sociedade comum é extremamente bem-vinda. A proposta segue um modelo de narrativa já bastante utilizado em diversos materiais, das HQs ao cinema, mas que sempre focam em histórias como as da mitologia grega, por exemplo. Assim, nada mais justo que tal modelo narrativo tenha a chance de explorar a riqueza do folclore brasileiro, especialmente quando a Netflix tem produzido conteúdos com esse viés de cultura local em seus diferentes mercados, caso de “Equinox”, trama original da plataforma lançada em 2020 e que tem como pano de fundo uma das lendas do folclore dinamarquês.

No entanto, boas ideias nem sempre são bem executadas. Neste ponto, a história criada por Carolina Munhoz e Raphael Draccon também se parece com a já citada “Equinox”, cujo início intrigante não consegue ser sustentado ao longo da história. Além dos mistérios que não são muito difíceis do público desvendar, incomoda a falta de aprofundamento no que realmente interessa – as entidades mitológicas.

Carlos Saldanha (à esquerda) orienta Marco Pigossi (Eric) no set

A sinopse da série coloca como protagonista Eric (Marco Pigossi), um fiscal ambiental que perde a esposa Gabriela (Julia Konrad) em um incêndio ocorrido numa floresta da Vila Toré, local próximo à cidade do Rio de Janeiro, cujas terras são de interesse de uma construtora. Obcecado em descobrir as verdadeiras causas do incêndio, Eric acaba vendo uma conexão entre o aparecimento de um boto-cor-de-rosa, já morto, numa praia do Rio e a morte de sua mulher. E é a partir daí que ele acaba se envolvendo no mundo oculto das entidades mitológicas brasileiras. A trama policial não é um problema em si, já que ajuda a conectar os dois mundos para o personagem principal, mas a forma como a mesma é conduzida não favorece ninguém, nem a Eric – que cai num protagonista sem sal – nem aos personagens folclóricos pouco aproveitados.

A série acerta bastante ao colocar as entidades folclóricas vivendo duplamente como invisíveis, primeiro por estarem camuflados como pessoas comuns, mas também poder estarem em posições de exclusão social. Apenas Inês, a misteriosa Cuca vivida por Alessandra Negrini, parece ter uma posição um pouco mais confortável que os outros seres místicos, o que também é um reflexo do posicionamento de liderança da bruxa e também de sua capacidade de transitar entre os dois mundos. Abordar a importância de conhecer sua própria história, num paralelo entre a cultura brasileira e a vida do protagonista, também é dos pontos positivos da produção.

Além dos mistérios que não são muito difíceis do público desvendar, incomoda a falta de aprofundamento no que realmente interessa – as entidades mitológicas

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Vale ainda ressaltar como Saldanha explora um Rio de Janeiro pouco apresentado ao público, especialmente mostrando pontos turísticos como os Arcos da Lapa de forma bem realista, sem a roupagem “pega turista” que sempre vemos. Também é destaque a atuação de Fábio Lago como Iberê, principalmente quando ele se transforma na lenda que realmente é.

Porém, assim como “Deuses Americanos”, série da Amazon Prime baseada no romance homônimo de Neil Gaiman, “Cidade Invisível” parece por muito tempo andar a caminho de lugar nenhum, dando tantas voltas que até o Saci se perde, literalmente, já que Isac (Wesley Guimarães), apesar do carisma imediato de seu personagem, passa episódios sem quase aparecer. O roteiro soluciona tudo de forma simplicista e extremamente didática, o que acaba empobrecendo parte dos diálogos da série e até mesmo infantilizando um conteúdo originalmente pensado para os adultos, afinal, um Saci chamado Isac com certeza ilustraria um livro infantil sobre lendas brasileiras.

“Cidade Invisível” parece por muito tempo andar a caminho de lugar nenhum, dando tantas voltas que até o Saci se perde, literalmente, já que Isac passa episódios sem quase aparecer

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Para quem não se lembra das histórias de cada lenda abordada na série, as cenas que iniciam alguns dos episódios também pouco explicam o surgimento das criaturas mitológicas. Já Eric parece não se surpreender com nenhuma de suas descobertas sobre tais criaturas serem reais e estarem ao seu redor, o que é um tanto inexplicável. As soluções visuais, especialmente no penúltimo episódio, são decepcionantes, em um clichê que mistura de filmes X-Men à série “A Maldição da Mansão Bly”.

“Cidade Invisível” tem um papel muito importante de mostrar ao público que nosso folclore é fascinante e tão rico, ainda mais quando nos damos conta do tanto de lendas brasileiras que ficaram de fora dessa primeira temporada da série. Já vimos produções com Apolos e Odins o suficiente. Mas ainda fica o desejo de vermos esses seres místicos da nossa terra em produções que não fiquem apenas na superfície das boas ideias com execuções questionáveis.

“Cidade Invisível” está disponível na Netflix.

nota do crítico

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