Criatividade 4 abr 2026

Campanha expõe como o true crime decide quem merece virar série

Missing People e BBH London lançam "Based on a True Story", campanha que satiriza a lógica de produção de filmes e séries sobre crimes reais

Campanha expõe como o true crime decide quem merece virar série
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Imagine uma sala de roteiristas às duas da manhã, sem pauta, com prazo. Alguém sugere uma menina que saiu pra escola e nunca chegou. "Trágico, mas é excitante?" Um homem mais velho com uma van misteriosa. "Idoso não é sexy." Um adolescente negro. "Público não simpatiza com membro de gangue." Ninguém disse que ele era de gangue, mas alguém assumiu. Uma universitária branca, fotogênica, desaparecida num trem pra Londres com falha policial e especulação de assassinato. "Isso dá boa TV!"

Essa é a cena central de "Based on a True Story", campanha da ONG britânica Missing People com a BBH London e a produtora Merman.

O elenco passa o filme inteiro com a frieza clínica de quem está desenvolvendo um produto. A virada final: esses não são personagens fictícios. São casos reais que a Missing People trabalha. O desconforto é total porque o espectador passou o tempo todo rindo de uma conversa que, no fundo, reconhece.

Por que importa: O Reino Unido tem alguém reportado como desaparecido a cada 90 segundos. Quase metade dos britânicos consome true crime todo dia. O que a campanha expõe não é que o gênero exista, é o processo de seleção que ele opera silenciosamente: quais histórias têm o perfil certo, a vítima certa, o arco narrativo certo.

Quem não passa no filtro some duas vezes: primeiro da vida real, depois da atenção pública. A Missing People também lança o Responsible Narratives Charter, um compromisso que criadores podem assinar para contar essas histórias com mais cuidado.

A campanha não para no filme. A BBH mandou para influencers e jornalistas um boxset físico premium chamado "Top Five Cases You Won't See on TV". Dentro: nada. Completam o trabalho painéis de OOH com fichas de casos reais anotadas com post-its de produtor: "precisa de mais suspense", "personagem não é simpático o suficiente". Cada peça replica a lógica do gênero antes de virar o espelho na audiência.

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Carlos Merigo

Carlos Merigo

Fundador do B9, host do Braincast e Cinemático. Escreve sobre mídia, publicidade e cultura digital há mais de 20 anos (geralmente tentando entender o hype antes que ele vire PowerPoint).

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