Negócios 18 jun 2025

Cannes Lions 2025: "Ser um cuidador me torna um líder melhor"

Enfim, um painel só de homens que a gente quer ver

Cannes Lions 2025: "Ser um cuidador me torna um líder melhor"
caretaker

Nem IA, nem leões: no Cannes Lions, uma conversa sobre o cuidado provocou um dos debates mais necessários da semana. O painel "How Caregiving Makes Men Better Leaders" reuniu no terraço da Female Quocient o escritor Kevin Chung, Leonid Sudakov (presidente da Mars Petcare), Brian Irving (CMO da Lyft) e Deepak Chopra (DeepakChopra.ai), com mediação de Jim Cooper (Digiday). A pergunta norteadora era simples: como as experiências de cuidado transformam a liderança masculina?

Chung abriu a conversa revelando uma virada em sua própria percepção. “Eu achava que era um líder compreensivo com quem cuidava de alguém. Dava espaço para ir ao médico, para ver o jogo de futebol. Mas aí virei cuidador. E percebi que às vezes, o que a pessoa precisa é dormir debruçada na mesa por meia hora", dividiu. Ele compartilhou como a experiência de cuidar da mãe mudou sua compreensão sobre o que é empatia no trabalho. Não é só sobre autorizar ausências. É sobre entender, na prática, que o cuidado atravessa tudo: tempo, energia, prioridades.

Na mesma linha, Brian Irving narrou como cuidar da esposa durante o tratamento contra um câncer o forçou a reordenar suas prioridades. "Existe poder em dizer para o time: hoje eu não estou bem", afirmou, defendendo uma liderança que reconhece a própria vulnerabilidade e não se baseia na negação do emocional.

Pai de dois durante a epidemia de Covid, Leonid Sudakov trouxe uma reflexão profunda sobre a relação entre cuidado e o medo da inadequação. Ele destacou como, em um mundo que nos empurra à constante insegurança sobre sermos ou não suficientes, o cuidado se revela um antídoto poderoso. "Acho que o cuidado  te dá aquela sensação de que você é o suficiente, e é muito fácil se sentir adequado, porque você sabe que produz algo que é significativo", compartilhou.

Para fechar o painel, Deepak Chopra fez uma convocação simbólica, instigando os homens a reconhecer, cultivar e expressar o que chamou de "energia do feminino". Citando arquétipos como a sabedoria de Atena, o acolhimento de Héstia e a intuição de Afrodite, Chopra provocou: "Ou seguimos nesse modo predatório que nos leva à destruição, ou evoluímos. O cuidado é a encruzilhada."

Deepak Chopra. Divulgação

Faltou política. Faltou prática

Apesar da honestidade e da vulnerabilidade expressa pelo grupo, uma lacuna importante persistiu: nenhum dos participantes mencionou licença-paternidade, políticas corporativas de cuidado ou estruturas de apoio coletivas. O risco, ao tratar o cuidado apenas como uma experiência pessoal, é justamente reforçar um modelo onde o ônus continua recaindo sobre os ombros de quem cuida (na imensa maioria, as mulheres), em vez de promover uma mudança cultural e sistêmica mais ampla.

Ainda assim, ver homens poderosos falando abertamente sobre sono interrompido, escuta e afeto já representa um respiro de esperança.

O que fica?

Alguns insights-chave emergiram desse painel:

* Empatia vai além de permitir saídas pontuais; é compreender o impacto profundo do cuidado na rotina emocional e física de alguém.

* Cuidar reorganiza as prioridades e ensina o verdadeiro significado da presença.

* Liderar também é ter a coragem de dizer "não estou bem".

* Escutar também é cuidar, disse Chopra: "Como médico, aprendi que ouvir as histórias das pessoas já é, por si só, um ato de cura.”

* O aprendizado do cuidado não se restringe a parentes; pode começar com um sobrinho, um animal de estimação ou um amigo.

* Compreender quem você é (e por quem você cuida) ajuda a responder o porquê e para quê você lidera.

No fim das contas, foi um painel só de homens, mas que, finalmente, não buscou manter o mundo como está.

Aberto a membros do B9. Crie sua conta grátis para participar.

Larissa Magrisso

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