Cannes Lions 25 jun 2026

Um brasileiro assumiu o marketing global da Unilever e fez de Cannes o palco da sua aposta em creators

Leandro Barreto reempacotou a virada bilionária da empresa numa filosofia sobre fogueiras e narrativas

Um brasileiro assumiu o marketing global da Unilever e fez de Cannes o palco da sua aposta em creators
Getty Images / Cannes Lions

Leandro Barreto cresceu no interior do Brasil, "estradas pequenas, céu grande", e queria ser ator. Virou publicitário e, em janeiro, assumiu o marketing global da Unilever. Nesta semana, subiu ao Debussy, o palco principal de Cannes Lions, para defender uma ideia sobre como marcas se constroem agora. A empresa parou de perguntar o que as próprias marcas querem dizer e passou a perguntar o que os outros querem dizer sobre elas.

Para Barreto, a indústria trocou valor por volume, ficou eficiente em produzir conteúdo que as pessoas ignoram e esqueceu de perguntar o que vale a pena ser passado adiante. O teste real de uma marca, na leitura dele, é se as pessoas continuam contando suas histórias quando ninguém da empresa está mais na sala.

Leandro Barreto, Unilever (Getty Images / Cannes Lions)

Daí veio a frase que ele sabia que a plateia esperava. A Unilever ganhou fama recente de estar indo para o "social-first". Ou seja, cortando mídia tradicional para apostar em criadores. Ele reconheceu a polêmica no palco antes de dizer que o debate sobre canais, na verdade, erra o alvo. O nome que ele deu para a virada é outro, "reality-first", a ideia de que as pessoas sempre confiaram mais na recomendação de um amigo do que no anúncio de uma marca, muito antes de plataformas e algoritmos existirem.

Para funcionar, ele listou três condições:

  • clareza de significado
  • compromisso com a cocriação
  • sistemas que sustentem a escala

E resumiu o ofício em dois termos que repetiu o discurso inteiro, "poesia e encanamento". Isso mesmo, encanamento, não encantamento. Poesia é intimidade cultural e coragem criativa. Encanamento são as plataformas e a tecnologia que fazem a história chegar longe. Sem uma, nada importa. Sem a outra, nada se espalha.

Os exemplos foram do próprio quintal. Na Dove, marca que ele acompanha desde 2011, dezesseis anos de "Real Beauty" criaram um significado tão claro que o público passou a tratá-lo como propriedade sua. Na Vaseline, cem anos de marca funcional, a empresa rastreou autores de hacks virais, alguns vindos de blogs de 2008, e transformou as ideias deles em produtos reais com repartição de receita sobre as vendas. Na Hellmann's, quando um quarterback da NFL começou a colocar maionese no café, a Unilever fechou parceria e lançou um perfume de maionese.

A lógica em todos é a de deixar que as pessoas remodelem a marca em vez de proteger o território. Foi da Dove, aliás, que veio a frase que melhor resume o argumento dele.

"A clareza viaja. A confusão não." — Leandro Barreto, CMO global da Unilever

O discurso é duas coisas ao mesmo tempo, e as duas são verdade. É uma das sínteses mais afiadas do marketing pós-broadcast que vão passar por esse festival. E é a defesa mais bem-acabada de uma decisão que a Unilever já tinha tomado. Sob o comando do CEO Fernando Fernandez, a empresa apostou pesado numa virada para social e criadores, tirando peso da mídia tradicional, e o mercado já vinha chamando isso de social-first.

Barreto reconhece a leitura e a devolve transformada em filosofia sobre fogueiras e narrativa milenar. Dar a um remanejamento de verba o tamanho de uma causa é o trabalho mais antigo do marketing, e ele o executa diante de uma plateia de marketing com maestria. Some-se a isso o eco do pódio e dos Grand Prix. O mesmo discurso de humano contra volume que varreu as categorias de craft apareceu no palco principal, agora pela boca de um dos maiores anunciantes do mundo.

Carlos Merigo

Carlos Merigo

Fundador e Publisher do B9

Ver todos os artigos →