81% dos clientes questionam o que agências cobram (e a IA acelerou a migração pra valor fechado por projeto)
Estudo com 356 líderes de marketing nos EUA e Canadá revela desconfiança crônica no modelo de hora trabalhada e abertura ampla a remuneração por entrega

A pergunta que toda agência ouve e finge não ouvir: por que precisa de tanta gente pra fazer isso?
81% dos clientes na América do Norte questionam regularmente a alocação de recursos proposta pela agência. 78% desses acham que a agência superestima. A principal reclamação com o modelo atual de remuneração é falta de transparência — acima de recursos inadequados, complexidade ou prazo.
Os dados vêm de pesquisa da Forrester Consulting com 356 líderes de marketing e procurement nos EUA e Canadá, encomendada pela Dentsu Creative. O retrato é de um modelo econômico sob pressão. E a IA está apertando o cerco.
Um quarto das agências na América do Norte já migrou pra modelo de valor fechado por projeto. Ou seja: escopo definido, entregáveis claros, preço único combinado. A agência cobra pelo resultado, não pelas horas. Quantas pessoas trabalharam, quanto tempo levou, se usou IA ou equipe humana, problema da agência. Outros 33% usam modelo híbrido (fee mensal + valor fechado por projeto). Somando, 58% já têm algum componente de cobrança por entrega. Apenas 4% ainda cobram exclusivamente por hora.
Dos que operam só com valor fechado, 63% estão satisfeitos ou muito satisfeitos. 30% neutros. Insatisfação quase inexistente.
Dos que ainda não adotaram, 53% têm interesse alto. Outros 28% têm interesse moderado. A Forrester descreveu como "abertura ampla" ao modelo.
[quoteesquerda]A agência precisa vender o pensamento, não o tempo[/quoteesquerda]
A IA acelerou a conversa porque criou um paradoxo que o modelo de hora não resolve. Quando a ferramenta faz em minutos o que um time levava dias, cobrar por hora penaliza quem é mais eficiente. Se a agência usa IA e entrega mais rápido, o cliente espera pagar menos. Se a agência mantém o preço, o cliente questiona. Se reduz o preço, a margem comprime. O valor fechado por projeto separa preço de tempo e coloca o foco no resultado.
Phil Gaughran, CEO da Dentsu Creative nas Américas, enquadrou a tensão com clareza:
"IA virou conversa só de eficiência, quando precisa ser equilibrada com conversa de eficácia. A gente fala em gerar valor pro cliente, mas muitas vezes valor dentro de uma conversa de agência significa mais barato. Você não está lá pra entregar a solução mais barata. Está lá pra entregar resultados e impacto."
Jay Pattisall, VP e analista principal da Forrester, trouxe a perspectiva histórica:
"A desconfiança do modelo baseado em horas e a arbitragem de mão de obra são a base do modelo econômico de agências desde o início. Sempre houve a pergunta: qual é o custo real do trabalho e quanto tempo está sendo cobrado?"
Pattisall disse que ficou surpreso com o nível de receptividade, esperava mais resistência dos anunciantes. Mas apontou um risco real: o escopo muda inevitavelmente ao longo de um contrato. Se o preço é fechado e o escopo cresce, a agência absorve o prejuízo.
A sugestão: pré-negociar "faixas de escopo" dentro do contrato. Um cardápio de opções que podem ser adicionadas ou removidas conforme a demanda muda. O contrato prevê a mudança antes que ela aconteça.
Steve Tanenbaum, CFO da Dentsu Creative Americas, explicou por que a Dentsu encomendou o estudo: "Pra relações sustentáveis, a metodologia de remuneração precisa funcionar pros dois lados. Senão, há desequilíbrio." A Dentsu já testa o modelo com clientes grandes e queria validação externa antes de expandir.
As cinco recomendações da Forrester:
- Priorizar resultados em vez de horas nas métricas de contrato.
- Garantir talento criativo de primeiro nível nos escopos (cobrar por entrega não pode ser desculpa pra escalar equipe júnior).
- Incluir IA e talento humano juntos no escopo, não separar tecnologia como custo operacional à parte.
- Criar faixas de escopo pra flexibilidade.
- Avaliar a relação agência-cliente a cada seis meses em formato 360 — e com valor fechado, essa avaliação foca em performance, não em discussão de horas e orçamento.
Por que importa: A pesquisa é norte-americana, mas a tensão é a mesma no Brasil, com agravantes locais. O mercado brasileiro de agências opera com modelos de remuneração que misturam fee mensal, BV (bonificação de volume de mídia), markup sobre produção e, em alguns casos, success fee. A IA pressiona todos esses modelos ao mesmo tempo.
Se a agência usa IA pra produzir peças mais rápido mas cobra fee mensal atrelado a volume de horas, o cliente percebe a discrepância. Se absorve o ganho de eficiência e entrega mais pelo mesmo preço, a margem comprime. O valor fechado por projeto é uma das respostas possíveis — e 25% das agências na América do Norte já migraram.
O dado de 81% dos clientes questionando alocação de recursos é o mais desconfortável do estudo pra qualquer agência. Quatro em cada cinco clientes olham a planilha e pensam "precisa disso tudo?"
Quando a IA torna a pergunta mais frequente e mais legítima, a resposta precisa mudar. O modelo que cobra pelo tempo gasto perde sentido num mundo onde o tempo gasto diminui. O modelo que cobra pela entrega sobrevive independente da ferramenta usada.



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