Claude passa a ter marca d'água invisível para cumprir lei europeia de IA
O Artigo 50 do AI Act, em vigor desde 2 de agosto, exige marcação de conteúdo sintético; a Anthropic é a primeira grande a detalhar a implementação, válida no mundo todo.

A metade do "selo de IA" que cabe aos fabricantes começou a sair do papel. O Artigo 50 do AI Act europeu, em vigor desde 2 de agosto — que abordei na Além do Feed —, cobra das duas pontas: quem publica precisa rotular deepfake e texto de IA de interesse público; quem fabrica precisa embutir no conteúdo uma marcação invisível, legível por máquina.
A Anthropic foi a primeira grande a detalhar como vai cumprir a sua ponta: um documento de suporte publicado segunda (10) confirma que os modelos Claude lançados a partir de 2 de agosto saem de fábrica com marca d'água invisível nos textos, tecida na escolha das palavras, e metadados de proveniência assinados, no padrão C2PA, nos arquivos.
A marca de texto é imperceptível na leitura, sobrevive ao copiar e colar e pode resistir a alguma edição. Vale em todos os produtos — app, API, Claude Code, Cowork, Tag, e por aí vai.
A regra vale para modelos lançados a partir de 2 de agosto, e quase tudo que roda hoje é anterior a essa data. O texto que os usuários geram neste momento majoritariamente ainda não carrega marca; os modelos antigos entram aos poucos, num período de transição que a própria lei prevê. O que existe hoje é o mecanismo, o compromisso e o cronograma.
A pressão que produziu isso é coletiva. O código de transparência do AI Act tinha cerca de 190 signatários até o fim de julho, com Google, Meta, Microsoft, Mistral e OpenAI na mesma seção de provedores que a Anthropic. Ninguém está inaugurando um movimento; todos estão cumprindo um prazo. A OpenAI, aliás, teve marca d'água de texto pronta e engavetou em 2024, depois de pesquisa interna apontar, segundo o Search Engine Journal, que cerca de 30% dos usuários do ChatGPT usariam menos o produto se ela existisse. O que era escolha virou lei.
O império da IA, de Karen Hao (Rocco)
Karen Hao cobre a OpenAI desde 2019, quando a empresa ainda prometia ser "uma força do bem", e passou os anos seguintes documentando a distância entre o discurso e a prática — dos engenheiros do Vale do Silício aos trabalhadores no Quênia que rotulam dados por trás da mágica. É uma investigação que explica por que a transparência dessa indústria precisou virar lei pra existir.
A única decisão discricionária da Anthropic foi não geo-limitar: a marcação vale no mundo inteiro, não só na Europa, que é tudo que a lei pede. Antes da leitura nobre, vale dizer que manter duas versões de cada modelo (uma carimbada pra UE e uma limpa pro resto do mundo) custa engenharia e cria um mercado de contorno. Marcar tudo, no final das contas, deve ser a opção mais barata.
A limitação central da iniciativa está admitida no próprio documento. Marca detectada prova que o conteúdo passou pelo Claude, não que o Claude o escreveu. O texto 100% humano que a ferramenta traduziu ou resumiu sai carimbado; o texto de máquina parafraseado, vertido pra outro idioma ou muito editado sai limpo, e trechos curtos nem têm espaço pra marca existir. A ferramenta que promete esclarecer autoria pode complicá-la nos dois sentidos, e falsa acusação vira risco tão real quanto fraude, que tem sido um problema recorrente das tecnologias que prometem detecção de IA.
De qualquer modo, a atual guerra da prova de humanidade está só começando. Blade Runner, quem diria, era um documentário.



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