Criatividade 20 mar 2026

Sprite ultrapassou a Pepsi e agora quer virar a marca oficial da cultura de rua

Terceiro refrigerante mais vendido dos EUA ganha rebranding com o estúdio forpeople, som criado pelo produtor Mustard e parcerias com NBA, Crenshaw Skate Club e Takis

Sprite ultrapassou a Pepsi e agora quer virar a marca oficial da cultura de rua
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A Sprite é, desde o ano passado, o terceiro refrigerante mais vendido dos Estados Unidos. Ultrapassou a Pepsi pela primeira vez. (Tá, antes de continuar vai querer saber os dois primeiros: Coca-Cola lidera, claro, e Dr. Pepper, em segundo lugar.)

E agora, a Sprite quer garantir que isso não foi acidente. "It's That Fresh" é a nova plataforma global da marca, lançada em 180 mercados com identidade visual renovada, logo sonoro inédito, parcerias em música, basquete, skate e comida picante, e dois novos produtos (Sprite Chill e Sprite+Tea). O pontapé foi um evento em Londres chamado Sprite FreshFest. A expansão global segue pelo resto do ano e aparece já no Brasil no Lollapalooza 2026.

Por que importa: Para além de uma companha, a Sprite está fazendo construção de sistema de marca. Design, som, collabs, produto e experiência, tudo organizado sob uma única lógica. Em vez de ativações soltas e parcerias dispersas, a Coca-Cola coloca tudo sob a mesma bandeira. A ideia é dar coerência global, cria memória de longo prazo com ativos próprios e transforma marketing em ecossistema. Santiago Iturralde, presidente de sparkling flavors da Coca-Cola Company, foi explícito: "É maior que uma campanha de marketing. É a forma como a marca vê cultura e se comporta."

A Sprite tem credencial para essa conversa. Foi a primeira grande marca de refrigerante a se alinhar com hip-hop nos anos 1960. Patrocinou a NBA desde 1986 por quase três décadas. Lançou "Obey Your Thirst" nos anos 1990. Drake fez parte do programa Limelight antes de ser Drake. A questão não é se a Sprite tem passado para reivindicar esse espaço. Tem. A questão é se consegue atualizar esse passado sem soar museu de si mesma.

O sistema: O que a Sprite montou é um pacote com seis camadas operando ao mesmo tempo:

  • Branding: Volta do símbolo Lymon (agora como ponto do "i"), logo vertical nas latas, paleta com contraste e saturação aumentados. Feito pela forpeople em parceira com time interno da Coca-Cola.
  • Sonic branding: Primeira identidade sonora global da marca, criada com o produtor Mustard.
  • Content engine: Música original com o rapper britânico LeoStayTrill usando instrumento customizado, um Ableton Move carregado com samples e sons do produto.
  • Street cred: Parceria com Crenshaw Skate Club (LA), drops limitados e experiências ao longo do ano.
  • Novos produtos: Sprite Chill (sensação de frescor sobre o limão-lima) e Sprite+Tea (nascido de trend viral de consumidores que já misturavam refrigerante com chá). Expansão global com sabores por mercado.
  • Esporte: Volta à NBA como refrigerante oficial global. Anthony Edwards (Timberwolves) como rosto da marca.

Iturralde disse, em entrevista a Adweek, que "Obey Your Thirst" não vai embora. "It's That Fresh" seria evolução, não substituição. Acontece que, na prática, duas plataformas globais simultâneas é confusão de mensagem. Se "It's That Fresh" funcionar, "Obey Your Thirst" tem que virar legado. Se não, vira rede de segurança.

A real: A Sprite entendeu algo importante sobre branding em 2026: marca forte não pode mais depender só de campanha. Precisa operar como sistema. É a tentativa de construir ativos de memória num mundo onde atenção se fragmenta rápido demais para slogans soltos durarem. Trabalhar em cima de códigos que já pertencem à Sprite — Lymon, verde, cultura de rua, hip-hop — é mais honesto e mais durável do que fabricar uma nova personalidade.

Se conseguir transformar essas parcerias em linguagem viva — e não em coleção de collabs previsíveis — a Sprite reforça seu lugar entre os jovens. Se não conseguir, vira mais um caso de multinacional tentando capturar autenticidade em escala global. A diferença entre os dois cenários não está no PowerPoint. Está na rua.

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Carlos Merigo

Carlos Merigo

Fundador do B9, host do Braincast e Cinemático. Escreve sobre mídia, publicidade e cultura digital há mais de 20 anos (geralmente tentando entender o hype antes que ele vire PowerPoint).

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